domingo, 3 de março de 2013

Quinquilharias (II Parte)




"...Então Ivi em que posso ajudá-la?
Ivi olhou cautelosa para todos os lados, então se aproximou do menino e abaixou o tom de voz.
- Eu preciso de comprar alguns utensílios domésticos –sussurrou ela –mas não qualquer um.
O menino encarou aquela garota estranha mais uma vez.
- Você não deveria estar comprando coisas como doces, enfeites, livro? –perguntou ele cauteloso.
- Isso é mais importante! –respondeu ela alegre
Ele encarou-a por algum tempo, e então se encaminhou para a seção de utilidades domésticas.
- Certo –disse ele satisfeito quando chegaram lá –o que exatamente você procura?
A menina colocou o dedo no queixo pensativa.
- Ahhh deixe eu ver, primeiro eu preciso de uma faca! Uma que seja boa.
Satisfeito por ela ter feito um pedido razoável, ele lhe mostrou a prateleira em que ficavam as facas. Ela olhou concentrada para todas elas, para todos os formatos e tamanhos, mas nenhuma parecia ser como ela queria. Chateada ela virou-se para o menino.
- Isso não serve! –declarou ela, a angustia marcando como linhas seu pequeno rosto alegre.
A reação dela, surpreendeu ele, e por um momento ele realmente achou que ela ia chorar.
- Como não serve? –retrucou ele perplexo –é tudo faca!
- Mas são afiadas!
O menino lançou um olhar resignado para ela.
- E você esperava o quê de uma faca?
Ela fechou a cara.
- Você não está ajudando! –disse ela.
A suas palavras, o menino olhou cauteloso para onde seus país trabalhavam e ambos cravaram seus olhos acusadores em sua direção. Ele respirou fundo.
- Certo, Certo –disse ele se dando por vencido –que tipo de faca exatamente você quer?
A essas palavras de encorajamento, o sorriso da menina se iluminou.
- Eu preciso de uma faca que pareça boa, mas que não corte muito, que não seja afiada!
O menino a encarou novamente como se ela fosse louca.
- Você quer uma faca cega? –perguntou ele perplexo.
Ela assentiu com a cabeça feliz.
Resignado ele pegou uma única faca no canto mais escondido da prateleira e mostrou a ela. Ivi, testou a lamina satisfeita.
- É serio, você quer mesmo isso?
Novamente ela assentiu, sorrindo de orelha a orelha. Ele suspirou ainda mais profundamente.
- Qual é o próximo item da lista? –perguntou ele desanimado.
Motivada pela conquista de ter achado o primeiro item da sua lista tão procurada, ela se pôs a falar feito torrente.
- Ah eu preciso de algum aparelho ou utensílio domestico que pique legumes, ou corte a batata fininha para fritar, também vou precisar de alguma engenhoca que corte carne ou desosse frango.
O menino continuava a encará-la como se ela tivesse um parafuso a menos.
- Sério, você não acha que é muito nova para casar não?
A menina fechou a cara, cruzou os braços, e bateu o pé no chão, irritada.
- E você não acha que a vida pessoal de seus clientes não é da sua conta?
O menino até pensou em responder insolentemente àquela observação inteligente dela, mas antes que suas palavras chegassem à boca, algum objeto voador não identificado surgiu de algum lugar atrás dele e bateu com toda a força na sua nuca. Ele levou a mão a cabeça e gemendo encolheu-se. Relutante olhou para trás. Seus pais detinha uma expressão assustadora no rosto. Respirou fundo e levantou novamente. A sua frente a menina o encarava raivosa. Apesar disso ele sorriu.
- Você tem razão, me perdoe.
Aquelas palavras pegaram-na completamente desprevenida, e desconcertada ela desviou o olhar.
- Tudo bem.
- Bom vamos tentar de novo, tá bem?
Alegre a menina assentiu.
- Deixe-me repetir a pergunta, o que mais você precisa?
- Eu preciso de algum utensílio ou aparelho que corte e pique legumes, e se há alguma coisa que corte carne?
Apesar do esforço ele continuou encarando-a irritado, embora nem ele mesmo soubesse do por que.
- Faca?! –respondeu ele simplesmente, o que a fez encara-lo desconfiada.
- Mas isso não resolve o meu problema – sussurrou ela, baixando o rosto.
Constrangido ele continuou a encara-la sem saber o que fazer.
- Eu não tenho como ajudá-la se você não me disser exatamente porque você precisa dessas coisas.
A menina continuou de cabeça baixa.
- Eu só quero algo que a ajude –sussurrou ela –sem, no entanto machuca-la.
Agora ele a encarava estupefato.
- Escute –disse ele vencido – o que você quer talvez seja mais caro do que você espera, ainda assim vai querer?
Aquelas palavras devolveram-lhe o sorriso e satisfeita ela assentiu.
- Não se preocupe com isso, eu juntei bastante dinheiro!
- Certo, então vamos começar –disse ele satisfeito –o que você precisa é disso! –completou ele mostrando um aparelho de porte médio, repleto de botões, e acessórios que ela nem sabia ao certo para quê servia.
- Ahhh e o que exatamente é isso? –perguntou ela confusa, pegando o aparelho e virando-o de um lado para outro para entender exatamente do que se tratava.
Ele riu dela e gentilmente tirou o aparelho das mãos dela.
- Isso é um processador de alimentos –disse ele com um sorriso confiante, enquanto ela se limitou a olha-lo perdida – essa belezinha aqui fatia frutas, legumes, verduras e carnes. Ainda bate massas pesadas, prepare cremes. Bate, moe e tritura qualquer coisa apenas ao alcance de um botão! – concluiu ele, levando dramaticamente o dedo indicador ao painel de botões do aparelho.
Ao ouvir aquilo, os olhos dela brilharam e aquele aparelho confuso passou a emitir uma áurea cintilante como se reluzisse feito ouro.
- Eu vou levar –disse ela decidida, independente do valor, pois ele serviria a um propósito que dinheiro nenhum no mundo podia comprar.
O menino anuiu com a cabeça.
- E para cortes de carnes que exigem maior esforço eu indico isso – ele então mostrou-lhe uma faca de aparência estranha. O cabo era bem maior e mais largo que as facas comuns, a própria lâmina era mais comprida que a maioria das facas além de ser dentada –Isso é uma faca elétrica –apressou-se ele a explicar ao olhar a confusão no rosto da menina – com ela não haverá mais a necessidade de maiores esforços mesmo que para cortar aqueles alimentos mais difíceis.
A menina pegou o aparelho encantada, e encarou o menino satisfeita.
- Você ainda tem mais algum aparelho a me mostrar? –perguntou ela gentilmente.
O menino negou com um pequeno gesto da cabeça.
- Não importa –disse ela alegre –o pouco que você me mostrou era tudo o que eu precisava! Muito obrigada.
A mulher que ainda há pouco empilhava produtos sobre as prateleiras e bancadas, esperava a menina com as caixas fechadas dos produtos que ela escolhera sobre o balcão do caixa. Ela usou todo o dinheiro que juntara para fazer aquela compra. Agradeceu toda ajuda que teve do menino novamente e depois saiu da tenda prometendo voltar novamente no ano seguinte.
O menino continuou a encará-la até o momento que ela saíra da tenda, desconcertado pela gentileza dela.
Ela cruzou novamente no anonimato as tendas e barracas. Seu semblante que antes carregava uma pequena mascara de preocupação, parecia em paz. O sorriso que não abandonava seu rosto, e o olhar que pintava a manhã de dourado.
Perfez o caminho da rua curva, da avenida paralela, do fim ultimo em que leva todos os caminhos. Desceu a pequena ladeira, até chegar à parte baixa da cidade, pintada ao longe pelo brilho ocasional das águas a agitar o leito do rio. Pegou um pequeno atalho atrás da Igrejinha, passou pelo campinho. Meninos gritavam, corriam, passavam a bola. Caminhou na trilha apertada entre as cercas, vacas pastavam preguiçosamente, galinhas ciscavam o chão. As bravias mulheres desse lugar encravado no interior das Minas Gerais, regavam as hortas, batiam enxada nessa manha ensolarada. O trajeto rasgava regatos, subia às sombras dos manguezais. E por fim desembocava ao fim da rua de sua casa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Quinquilharias (I Parte)




Ainda estava muito cedo, não fazia muito tempo que o sol saíra na linha dos horizontes. Os pássaros ainda soavam sua doce melodia, o orvalho respingava pela grama. Ali perto outro barulho preenchia o ar com seu ressoar metálico. Em uma rua paralela a avenida principal, os homens trabalhavam agilmente para terminar de montar as ultimas barracas, e tendas. as mulheres empilhavam com pericia seus produtos sobre a bancada das barracas. De tudo havia um pouco, roupa de cama, mesa e banho, plantas e animais, vestuário, frutas e verduras, Pães, carnes e é claro as quinquilharias. De coisas usadas a engenhocas, mirabolantes ferramentas vindas de todos os lugares do mundo, cuja utilidade era inegável.
Além das tradicionais barracas das quinquilharias havia as barracas de comidas. Vendia-se de tudo, de comida mineira a mexicana. Passando pelo pão de queijo aos churros. Do pão tatu ao Hot Dog. Sempre conservando aquele toque caseiro de comida mineira.
Apesar da hora adiantada, já havia muitas pessoas passeando por ali, apreciando encantadas o universo de coisas expostas nas barracas. Tanta quantidade como nunca se viu igual. Cada um seguindo a trilha de suas preferências. Uns se perdiam na barraca de pesca e esportes, outros, na barraca de livros e enfeites, as mulheres é claro faziam certo alarde pela quantidade de frutas que existia nesse mundo, outras da qualidade do bordado das toalhas de mesa, mas uma em questão passou silenciosa pelas mesmas barracas sem nem mesmo se ater a elas.
Não era ainda uma mulher, mas uma garota, que deixava para trás aos poucos as manias de crianças. Seu olhar perscrutava inocente o conteúdo das barracas, mas nada parecia atraí-la. No andar cadenciado revelava um pouco de timidez, suas mãos incertas seguravam a pequena bolsa de moedas como se fosse seu maior amuleto. Em cada barraca em que parava as mesmas perguntas educadas.
– A moça não gostaria de comprar uns doces, são os melhores da região!
– Venha mocinha –dizia outra vendedora simpática – conhecer nossos produtos, tenho certeza que irá gostar!
Perguntas essas que tinha o efeito contrario de assusta-la. Agradecia envergonhada e saia de perto da barraca o mais rápido que podia.
Mas toda essa procura incerta, tinha sua lógica no final das contas. Procurava algo que tivesse certa utilidade, amenizar suas preocupações. Não sabia se havia ali um item de tal valor, o valor de proporciona-lhe alivio. Então continuava a caminhar entre as barracas com os olhos atentos a encontra-lo, percorria pela rua curva calçada de pedras, que desembocava na praça das tradicionais quinquilharias.
Seus pés guiaram-na sem perceber, e em um momento via encantada todo o tipo de plantas e flores, em outro, quadros ricamente pintados, estatuas, artesanatos afins até adentrar na pracinha das bugigangas. Eram tantas e com tantas utilidades e de tantos formatos que por um momento ela ficou parada sem saber ao certo qual lugar olhava primeiro.
Seus pés novamente tomaram a decisão por ela e ela se viu caminhando lentamente pelas barracas olhando de abajus que imitavam o céu, a aquários em formatos de baús. Havia tantas coisas, que ela olhava aquele mar de invenções como se fosse o tesouro mais precioso do mundo.
Algum tempo depois adentrou em uma tenda especialmente grande, lá dentro ainda havia uma bagunça só e o vendedor corria feito louco para ajeitar as coisas. No fundo uma mulher colocava agilmente o conteúdo de uma grande caixa na banca para exposição. Assim que ela entrou na barraca o homem levantou a cabeça do árduo trabalho com as prateleiras e a encarou.
- Por favor – apressou-se ele a dizer –queira fazer a gentileza de esperar um pouco, vou chamar meu filho para te ajudar enquanto isso fique a vontade.
A menina recebeu aquelas palavras com admiração. E ficou ali observando os dois trabalharem habilmente enquanto acabava de montar as ultimas prateleiras.
- Gui! –chamou o homem através de uma abertura no fundo da barraca –largue essas caixas por um momento e venha atender os clientes.
- Já estou indo! –gritou de voz uma voz de menino que ela supôs chamar-se Gui!
Ela olhava curiosa as engenhocas que a mulher ia empilhando sobre a bancada. Entre eles muitos utensílios domésticos que eram no mínimo muito curiosos. Interessada em ser útil de alguma forma aproximou-se da mulher.
- Éh, -começou ela incerta sobre o que falar –eu posso ajudar a senhora de alguma forma?
A mulher levantou a cabeça da caixa e olhou para ela surpresa.
- Mas você, você é nossa cliente –disse ela com sinceridade – somos nós que devemos ajuda-la de alguma forma!
A menina sorriu inteligente.
- Sei que farão o melhor que puderem assim que ajeitarem tudo isso aqui –respondeu ela –mas até lá deixe-me ajuda-los e daqui a pouco o Gui vai vim ajudar também –completou ela.
A mulher e o Homem se olharam espantados, mas por fim deram de ombros. E ela então começou a empilhar os utensílios da mesma forma que a mulher fazia enquanto engajava em uma conversa sobre aquele trabalho que ela considerava incrível.
Pouco tempo depois o menino chamado Gui entrou na barraca.
- Ué pai –disse ele confuso, olhando para todos os lados –você não disse que tinha cliente?
O homem levantou novamente seus olhos concentrados das peças de pratileiras espalhadas a sua frente e encarou o filho aéreo. Depois levantou o dedo indicador, e mostrou a menina perto de sua mãe.
- A nossa primeira cliente é essa mocinha gentil bem ali!
O menino virou a cabeça lentamente na direção dela, e a encarou desconfiado.
- Oi Gui que bom que você chegou! –disse ela se levantando do meio das caixas, assustando o menino ainda mais.
- Nos... Nós nos conhecemos? –indagou o menino aturdido!
- Ahhh é mesmo! –disse ela se dando conta – Ainda não! Eu me chamo Ivi e você é o Gui né? –disse ela pegando a mão do menino e apertando entusiasmada.
- A... Acho que sim, muito prazer –concluiu ele desconcertado – então Ivi em que posso ajudá-la?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A voz do vento




O céu estava revolto. Nuvens de tempestades se agitavam acima dos horizontes. O vento uivava, agitava violentamente as cortinas, e invadia o quarto com toda a sua fúria. Ela sentia o frio lhe perpassar ao longe. Seu coração balançava ao vento. Quando a primeira gota irrompeu das nuvens de tempestade, uma lagrima rolou lentamente pelo seu rosto. A tormenta que se avistava lá fora era a mesma que toldava os seus pensamentos. Fechou os olhos, e esperou a fúria passar.
- Você achou? –indagou uma voz distante. Uma voz soprada por mil outras vozes.
A estranha voz despertou a sua consciência. Seus olhos ainda ardiam fechados. A febre a lhe queimar as pálpebras.
- Achei? –sussurrou ela confusa.
- Sim –respondeu de volta as mil vozes – você achou aquilo que procurava? A morada de Deus?
Um sentimento de reconhecimento tomou conta dela, ao mesmo tempo em que uma nova onda de dor percorreu todo seu ser.
- Não – admitiu ela por fim – não há nesse mundo um lugar assim.
Lá fora singelas gotas de chuva, lavavam a terra seca.
- Você esteve fora por tanto tempo – disse-lhe a voz delicadamente – e ainda assim não achou a resposta que procurava?
Seus olhos encheram d´água.
- Não – disse ela humildemente – estive em tantos lugares e com uma infinidade de pessoas diferentes, com tantos meios diferentes de ver Deus, mas eu não o vi em lugar algum. Não estava em nenhum lugar escondido que não pudesse ser encontrado, nenhuma baía, nenhum recife esquecido. Não estava nos templos, nem nas tradições, não estava nos livros, nem nas religiões. Não estava entre os humildes, nem com os peregrinos do Deserto, não estava entre os ricos, nem em seus monumentos. Não estava no alto de uma montanha, nem em um vale profundo. Tão pouco no seio da Floresta nem nas vastas extensões geladas das tundras siberianas. Não estava nos requícios do passado, entre as pirâmides do Egito, ou na grande muralha, também nenhuma noticia tive no monte Sinai. Nem nos rios que ligam este mundo. Nem nas pontes que ligam as pessoas. Não encontrei Deus em lugar nenhum.
Um breve momento se passou, após essas derradeiras palavras. O vento ainda sussurrava arredio pela janela.
- Deus existe? – indagou então a voz, e ela veio tão tremula, que a menina se compadeceu dela.
- A resposta que eu achei, talvez não sirva para você! – respondeu-lhe ela delicadamente.
- E porque não? – questionou-lhe a voz vivamente curiosa.
- Porque cada um deve encontrar a sua própria resposta –disse ela –uma que satisfaça sua alma. Uma que não precisa da opinião alheia para saber se é real ou não. Uma que não seja influenciada por nenhuma pessoa, nenhuma vontade, nenhuma razão que aparentemente lhe tome a verdade, ou tolda-lhe a visão de Deus.
Ela sentiu ao longe, a voz sorrir.
- Eu preciso saber – insistiu a voz – Você encontrou Deus? Ele existe?
Ela então abriu os olhos. Mas não viu a tempestade. Viu um horizonte que se estende além daquilo que se pode ver. O sol recortava a paisagem sobre um mosaico de cores. Pintava o verde da folha nova sobre as arvores e as gramas. Animais pastavam preguiçosamente sobre as paragens sem cerca. O frio não ardia sua pele, nem a febre queimava-lhe o corpo. Levantou-se do chão, e ergueu os olhos. Alguém lhe estendia as mãos. Alguém que pulsava como o vento, nas brisas de verão. Que tinha a pele morena como chocolate quente, e parecia flutuar a menor brisa. Aceitou-lhe a mão que lhe era oferecida. E assim que a tocou sentiu, pela primeira vez como em um estalo, uma eureca, que já não sentia mais medo, tristeza ou dor. A mão que segurava, era forte e segura. Nela podia descansar.
Ele então sorriu para ela.
- Então – indagou ele novamente, sua voz era uma e era três, homem, mulher e criança – você encontrou Deus? Ele existe?

- Sim – disse ela – procurei por muito tempo, mas a verdade era que eu não sabia o que procurar. Queria ver alguém, ou sentir-me protegida? Essa não era a verdade absoluta. No fim descobrir que em todos os lugares que eu ia, eu estava apenas procurando por mim mesma. Por essa razão de existir. Pela resposta desse medo visceral de ser apenas mais um animal, um ser autônomo que não tem outra razão de ser a não ser nascer, comer, crescer, aprender, reproduzir, envelhecer e morrer. Um ser feito apenas de verbos, nada mais que isso. Então em certo momento parei de procurar nos lugares e olhei para dentro de mim. Perfiz o caminho dos filósofos e eruditos. Dos teólogos e dos cientistas. Mas sempre batia no mesmo muro. Nas mesmas indagações cujas respostas eram outras tantas perguntas. Percebi que a resposta não deveria ser tão complexa assim, então parei de querer justificar a existência de Deus através dos meus olhos, dos meus medos, dentro dos limites do meu universo e comecei a justificar a mim mesma, procurando razões para provar que eu existo. Percebi algo incrível e ao mesmo tempo tão simplório que meu coração estremeceu de alegria, e uma sensação quente envolveu-me completamente. No meio do turbilhão de duvidas, percebi que sentia. Mais do que apenas reproduzir um comportamento, eu sentia. Sentia medo, anseio, raiva, inveja, compaixão, tristeza, culpa, alegria, amor e tantos outros sentimentos que me tornava viva, não uma condição de ser vivo, mais ser que existe, por qualquer que seja a razão dessa existência. E quando descobrir essa verdade, o encontrei. E assim como eu, ele sentia.
Ele olhou para ela surpreso.
- Mas você não disse que não encontrou Deus em lugar algum? – indagou ele de novo.
- Sim – respondeu ela – e mantenho, não existe um lugar na terra em que ele esteja, e que seja possível acha-lo. Mas existe seis bilhões de lugares nesse mundo em que ele possa nós encontrar!
A chuva desceu feito torrente, mas suas lágrimas em fim secaram. E quando finalmente a tormenta passou, ela não abriu os olhos, nem mudou de lado na cama, para aproveitar esse pequeno raio de luz solar que aquecia sua pele fria da fúria do vento. Seus pés agora percorriam outros caminhos, seus olhos já não estavam mais toldados, e ela viu, caminhando bem ao seu lado. Aquele a quem sempre procurou!


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A tela da Memória

"E tudo começa com o olhar, que desvenda a paisagem, para dela se apossar!"


"



Navega por essas lembranças como água flui por um rio,
Sem jamais voltar,
Correndo pelo mundo sem jamais aportar!

Sussurra pela encosta dessas montanhas
Como vento
Acalenta a flor da mangueira
Sem arrastar
Sem tocar

Como o sol que aquece a pele
Nas manhãs de inverno
Tão ameno
E corriqueiro
Sem jamais queimar

Ouça a melodia ecoar
Nesses recônditos esquecidos
Da terra a desbravar
Canta a Cigarra
O Bem-te-vi
E o Sabiá

E quando o céu tocar
E sobre as nuvens viajar
O Horizonte tão esplendido
Tão distante
Acima das montanhas se mostrará

A paisagem colada na retina da memória
Com a tela a perfilar
Esses rabiscos caprichados
Pelo tempo
Das curvaturas desse rio

E como rio Navega pelas lembranças
Sem jamais permanecer
A paisagem que compõe esse quadro
Desvanecerá com o fluir das águas
Permanecendo Apenas nos olhos
Daquele que vê

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ilusion

"Nunca deixe de ser quem você é!"





Intermitente quanto o giro gracioso do Silêncio
Nas faces rosadas desse Sentimento
Uma luz borrada que insinua suas fabulas

Uma musica suave toca ao longe
Fecho os olhos
Enquanto o mundo girava no compasso dessa melodia

Girando e girando, as ondas batendo na proa desse barco
Deitada entre as rosas, recobertas de espinhos
Que empalavam a carne e derramavam entre as feridas o doce fragor das rosas

E assim se derramavam na escuridão
Abismos e vales se intercalavam ao doce giro da vida
Entre os cacos quebrados dessa ilusão
Suspiro trêmulo em meio a tempestade habita

Girando e Girando, no compasso do vento
A melodia sinistra que ecoa nos recônditos da alma
O vitral se quebra no arranjo rebuscado desse do

A ferida viva que se ascende
As cores se alteram, e revelam a imagem no espelho
A ilusão tremula enquanto as gostas de sangue se espalham ao redor
Da imagem refletida da dor

As imagens são borradas
As lagrimas derradeiras toldam a visão
Mas ainda é possível enxergar ao longe o porto dos sentidos
Aqueles que nos são visíveis, se distanciar

E girando o barco afasta, das nuvens de Nevoa
Que se dissipam quando abro os olhos
Para vislumbrar apenas uma cálida luz
Quando antes era um lindo pôr do sol

E assim vejo a verdade por trás das tênues ilusões que nos cercam
As pessoas crivam suas mentes com mentiras
E elas engatam-se em suas peles como se fossem lindas rosas
Mas sem contudo ver, o sangue que caem lentamente da ferida aberta de suas ilusões

A verdade é uma chama tênue de luz que brilha fracamente
No fim do abismo mais profundo e vil
De nossos Tormentos

E assim que o barco aporta
Vislumbro por um instante a verdade se insinuar nas bordas desse mundo
Antes que a nuvem de Nevoa ganhe força
E acompanhe meu passo cadenciado para o caminho das verdades ocultas

sábado, 9 de junho de 2012

Filme Mudo


“Tem momentos em que as coisas realmente parecem eternas, mas ai algo silencioso nos chama, a morte, branda e fria como uma chama que se apaga. Canta uma melodia muda, que nos toma a alma e nos arrebata. Então um filme na imensidão lúgubre da inexistência começa a rodar, preto e branco, e não se ouve som algum. As pessoas surgem na tela uma a uma, com sorrisos gentis estampados no rosto, chamando-me, tocam-me com mãos quentes que só se pode imaginar. Olha-nos com olhares expressivos, como se quisesse não apenas nos sondar, mas adentrar em nosso coração e ali morar. Os sorrisos inelegíveis e afáveis. Em outros momentos as brincadeiras de uma infância tenra. A bicicleta, o balanço, a pipa, a bola e a boneca se misturam. Nesses momentos não estamos sozinhos, sempre há alguém por ali, que nos acompanha em tudo quanto é lugar. Nas traquinagens da meninice. Ao entardecer, mamãe prepara algo incrível, cujo sabor nunca mais iremos provar, pois ao crescermos e experimentar as desilusões da vida, tudo passa a ter um amargor estranho que não sabemos explicar. Mas outra lembrança também esta lá se insinuando sobre a tela pelo rolo do filme, um aperto no peito ao vê-lo aproximar, a ansiedade da ausência, a alegria do reencontro, e mais ainda a ternura do primeiro beijo, cujo sentimento jamais pode apagar ou mesmo se repetir. Porque com o passar do tempo ele se perde em tantas outras coisas. 
Que não tem mais sentido. Algumas lagrimas pintam o filme enquanto  roda, desfocando-o, dizem que passam em alguns minutos, mas para mim, foi a minha vida toda. O som silencioso que queda nossa alma na inquietude, esta lá como trilha sonora do filme da nossa vida. Nesse instante a palavra eterno soa como uma piada sem graça e percebemos algo incrível. Mas que de uma maneira ou de outra sempre fez parte da nossa vida, mas por alguma razão resolvemos ignora-lo.  O quanto desperdiçamos nosso tempo. Olhando para o espelho de minha existência, para as pessoas que passaram por ela, percebo algo de muito valor, queria ter a oportunidade de falar mais um dia com essa pessoa amiga, de brincar mais um pouco, de se aventurar mais uma vez no mundo das descobertas, de dar mais um abraço, de beijar delicadamente mais uma vez, e ter podido dizer a ele que eu amava mesmo sabendo que ele não. Quando o filme acaba um vazio toma o seu lugar. Aquele mesmo que se insinua nas beiradas de nossa breve existência, toda vez que nos sentimentos frágeis. Tomando nosso corpo, enquanto nos perdemos na imensidão de um sono profundo. Ai indagamos mais uma vez, o que é essa palavra intocada e etérea, eterno? Porque, perder se vamos nos encontrar? Como queremos levar o que somos para a eternidade sem nem ao menos reconhecemos seu valor? As pessoas passam por nós, e a encaramos apenas como uma extensão de nós mesmos. Não usamos de sensibilidade para tratar a angustia alheia e desmedidamente queremos o outro apenas como objeto de um desejo insaciável novamente: nosso! O filme talvez passe para aqueles que partem apenas para aprender a medir suas ações, sabendo que tudo que passou ficara para trás. E não há possibilidade de resgate! A nossa alma cujo caráter eterno perdurara ainda que para isso tenhamos que perder todo resto!”

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Fênix




Ando descalça
Pelo quarto
Tropeço nas coisas espalhadas
Desordenadas pelo chão

O silencio é quebrado
Por uma breve melodia
Que acalenta meu coração

Resgato as palavras ao acaso
Embrulhadas no papel amassado
Transportando-me para um mundo
Que não me pertence mais

O céu resplandece com um azul brilhante
O vento é tão frio
A mão que me puxa para um abraço de urso
É tão quente, não me sinto mais sozinha

Que pena, os contos de fadas
Não podem existir
O sol foi embora

E uma tempestade se insinua sobre os tênues raios solares
Agora a chuva lava a terra
E o vento castiga minha janela

O frio que sinto
Se instala em um lugar
Que sol algum pode alcançar

O toque singelo dos fios de algodão
Derrubo o café
Não consigo mais me levantar

Nada importa
O sorriso do dia ensolarado
Se apagou, num eclipse

Um cinza lúgubre pinta os céus
As cores se foram
As notas dessa canção, não quebram mais esse silêncio profundo



Ando descalça
Tropeço nas linhas dos meus sentidos
Que param inquietos
Enquanto recobro a consciência

Ele nunca estivera aqui
A chuva ainda lava as mentiras
E deixa apenas a menina

Que ainda sorri consigo mesma
Das coisas bobas
Seus sonhos descobertos

Ainda podem ser moldados
A meiguice se insinua nos cantos
Da janela de seus olhos

O sol desperta de um longo sono
Levando-me para longe
No infinito da existência das coisas fantásticas

As aventuras estão dispostas
Não sei se um cavaleiro chegará
Mas ainda ei de aportar em algum lugar