quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Quinquilharias (I Parte)




Ainda estava muito cedo, não fazia muito tempo que o sol saíra na linha dos horizontes. Os pássaros ainda soavam sua doce melodia, o orvalho respingava pela grama. Ali perto outro barulho preenchia o ar com seu ressoar metálico. Em uma rua paralela a avenida principal, os homens trabalhavam agilmente para terminar de montar as ultimas barracas, e tendas. as mulheres empilhavam com pericia seus produtos sobre a bancada das barracas. De tudo havia um pouco, roupa de cama, mesa e banho, plantas e animais, vestuário, frutas e verduras, Pães, carnes e é claro as quinquilharias. De coisas usadas a engenhocas, mirabolantes ferramentas vindas de todos os lugares do mundo, cuja utilidade era inegável.
Além das tradicionais barracas das quinquilharias havia as barracas de comidas. Vendia-se de tudo, de comida mineira a mexicana. Passando pelo pão de queijo aos churros. Do pão tatu ao Hot Dog. Sempre conservando aquele toque caseiro de comida mineira.
Apesar da hora adiantada, já havia muitas pessoas passeando por ali, apreciando encantadas o universo de coisas expostas nas barracas. Tanta quantidade como nunca se viu igual. Cada um seguindo a trilha de suas preferências. Uns se perdiam na barraca de pesca e esportes, outros, na barraca de livros e enfeites, as mulheres é claro faziam certo alarde pela quantidade de frutas que existia nesse mundo, outras da qualidade do bordado das toalhas de mesa, mas uma em questão passou silenciosa pelas mesmas barracas sem nem mesmo se ater a elas.
Não era ainda uma mulher, mas uma garota, que deixava para trás aos poucos as manias de crianças. Seu olhar perscrutava inocente o conteúdo das barracas, mas nada parecia atraí-la. No andar cadenciado revelava um pouco de timidez, suas mãos incertas seguravam a pequena bolsa de moedas como se fosse seu maior amuleto. Em cada barraca em que parava as mesmas perguntas educadas.
– A moça não gostaria de comprar uns doces, são os melhores da região!
– Venha mocinha –dizia outra vendedora simpática – conhecer nossos produtos, tenho certeza que irá gostar!
Perguntas essas que tinha o efeito contrario de assusta-la. Agradecia envergonhada e saia de perto da barraca o mais rápido que podia.
Mas toda essa procura incerta, tinha sua lógica no final das contas. Procurava algo que tivesse certa utilidade, amenizar suas preocupações. Não sabia se havia ali um item de tal valor, o valor de proporciona-lhe alivio. Então continuava a caminhar entre as barracas com os olhos atentos a encontra-lo, percorria pela rua curva calçada de pedras, que desembocava na praça das tradicionais quinquilharias.
Seus pés guiaram-na sem perceber, e em um momento via encantada todo o tipo de plantas e flores, em outro, quadros ricamente pintados, estatuas, artesanatos afins até adentrar na pracinha das bugigangas. Eram tantas e com tantas utilidades e de tantos formatos que por um momento ela ficou parada sem saber ao certo qual lugar olhava primeiro.
Seus pés novamente tomaram a decisão por ela e ela se viu caminhando lentamente pelas barracas olhando de abajus que imitavam o céu, a aquários em formatos de baús. Havia tantas coisas, que ela olhava aquele mar de invenções como se fosse o tesouro mais precioso do mundo.
Algum tempo depois adentrou em uma tenda especialmente grande, lá dentro ainda havia uma bagunça só e o vendedor corria feito louco para ajeitar as coisas. No fundo uma mulher colocava agilmente o conteúdo de uma grande caixa na banca para exposição. Assim que ela entrou na barraca o homem levantou a cabeça do árduo trabalho com as prateleiras e a encarou.
- Por favor – apressou-se ele a dizer –queira fazer a gentileza de esperar um pouco, vou chamar meu filho para te ajudar enquanto isso fique a vontade.
A menina recebeu aquelas palavras com admiração. E ficou ali observando os dois trabalharem habilmente enquanto acabava de montar as ultimas prateleiras.
- Gui! –chamou o homem através de uma abertura no fundo da barraca –largue essas caixas por um momento e venha atender os clientes.
- Já estou indo! –gritou de voz uma voz de menino que ela supôs chamar-se Gui!
Ela olhava curiosa as engenhocas que a mulher ia empilhando sobre a bancada. Entre eles muitos utensílios domésticos que eram no mínimo muito curiosos. Interessada em ser útil de alguma forma aproximou-se da mulher.
- Éh, -começou ela incerta sobre o que falar –eu posso ajudar a senhora de alguma forma?
A mulher levantou a cabeça da caixa e olhou para ela surpresa.
- Mas você, você é nossa cliente –disse ela com sinceridade – somos nós que devemos ajuda-la de alguma forma!
A menina sorriu inteligente.
- Sei que farão o melhor que puderem assim que ajeitarem tudo isso aqui –respondeu ela –mas até lá deixe-me ajuda-los e daqui a pouco o Gui vai vim ajudar também –completou ela.
A mulher e o Homem se olharam espantados, mas por fim deram de ombros. E ela então começou a empilhar os utensílios da mesma forma que a mulher fazia enquanto engajava em uma conversa sobre aquele trabalho que ela considerava incrível.
Pouco tempo depois o menino chamado Gui entrou na barraca.
- Ué pai –disse ele confuso, olhando para todos os lados –você não disse que tinha cliente?
O homem levantou novamente seus olhos concentrados das peças de pratileiras espalhadas a sua frente e encarou o filho aéreo. Depois levantou o dedo indicador, e mostrou a menina perto de sua mãe.
- A nossa primeira cliente é essa mocinha gentil bem ali!
O menino virou a cabeça lentamente na direção dela, e a encarou desconfiado.
- Oi Gui que bom que você chegou! –disse ela se levantando do meio das caixas, assustando o menino ainda mais.
- Nos... Nós nos conhecemos? –indagou o menino aturdido!
- Ahhh é mesmo! –disse ela se dando conta – Ainda não! Eu me chamo Ivi e você é o Gui né? –disse ela pegando a mão do menino e apertando entusiasmada.
- A... Acho que sim, muito prazer –concluiu ele desconcertado – então Ivi em que posso ajudá-la?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A voz do vento




O céu estava revolto. Nuvens de tempestades se agitavam acima dos horizontes. O vento uivava, agitava violentamente as cortinas, e invadia o quarto com toda a sua fúria. Ela sentia o frio lhe perpassar ao longe. Seu coração balançava ao vento. Quando a primeira gota irrompeu das nuvens de tempestade, uma lagrima rolou lentamente pelo seu rosto. A tormenta que se avistava lá fora era a mesma que toldava os seus pensamentos. Fechou os olhos, e esperou a fúria passar.
- Você achou? –indagou uma voz distante. Uma voz soprada por mil outras vozes.
A estranha voz despertou a sua consciência. Seus olhos ainda ardiam fechados. A febre a lhe queimar as pálpebras.
- Achei? –sussurrou ela confusa.
- Sim –respondeu de volta as mil vozes – você achou aquilo que procurava? A morada de Deus?
Um sentimento de reconhecimento tomou conta dela, ao mesmo tempo em que uma nova onda de dor percorreu todo seu ser.
- Não – admitiu ela por fim – não há nesse mundo um lugar assim.
Lá fora singelas gotas de chuva, lavavam a terra seca.
- Você esteve fora por tanto tempo – disse-lhe a voz delicadamente – e ainda assim não achou a resposta que procurava?
Seus olhos encheram d´água.
- Não – disse ela humildemente – estive em tantos lugares e com uma infinidade de pessoas diferentes, com tantos meios diferentes de ver Deus, mas eu não o vi em lugar algum. Não estava em nenhum lugar escondido que não pudesse ser encontrado, nenhuma baía, nenhum recife esquecido. Não estava nos templos, nem nas tradições, não estava nos livros, nem nas religiões. Não estava entre os humildes, nem com os peregrinos do Deserto, não estava entre os ricos, nem em seus monumentos. Não estava no alto de uma montanha, nem em um vale profundo. Tão pouco no seio da Floresta nem nas vastas extensões geladas das tundras siberianas. Não estava nos requícios do passado, entre as pirâmides do Egito, ou na grande muralha, também nenhuma noticia tive no monte Sinai. Nem nos rios que ligam este mundo. Nem nas pontes que ligam as pessoas. Não encontrei Deus em lugar nenhum.
Um breve momento se passou, após essas derradeiras palavras. O vento ainda sussurrava arredio pela janela.
- Deus existe? – indagou então a voz, e ela veio tão tremula, que a menina se compadeceu dela.
- A resposta que eu achei, talvez não sirva para você! – respondeu-lhe ela delicadamente.
- E porque não? – questionou-lhe a voz vivamente curiosa.
- Porque cada um deve encontrar a sua própria resposta –disse ela –uma que satisfaça sua alma. Uma que não precisa da opinião alheia para saber se é real ou não. Uma que não seja influenciada por nenhuma pessoa, nenhuma vontade, nenhuma razão que aparentemente lhe tome a verdade, ou tolda-lhe a visão de Deus.
Ela sentiu ao longe, a voz sorrir.
- Eu preciso saber – insistiu a voz – Você encontrou Deus? Ele existe?
Ela então abriu os olhos. Mas não viu a tempestade. Viu um horizonte que se estende além daquilo que se pode ver. O sol recortava a paisagem sobre um mosaico de cores. Pintava o verde da folha nova sobre as arvores e as gramas. Animais pastavam preguiçosamente sobre as paragens sem cerca. O frio não ardia sua pele, nem a febre queimava-lhe o corpo. Levantou-se do chão, e ergueu os olhos. Alguém lhe estendia as mãos. Alguém que pulsava como o vento, nas brisas de verão. Que tinha a pele morena como chocolate quente, e parecia flutuar a menor brisa. Aceitou-lhe a mão que lhe era oferecida. E assim que a tocou sentiu, pela primeira vez como em um estalo, uma eureca, que já não sentia mais medo, tristeza ou dor. A mão que segurava, era forte e segura. Nela podia descansar.
Ele então sorriu para ela.
- Então – indagou ele novamente, sua voz era uma e era três, homem, mulher e criança – você encontrou Deus? Ele existe?

- Sim – disse ela – procurei por muito tempo, mas a verdade era que eu não sabia o que procurar. Queria ver alguém, ou sentir-me protegida? Essa não era a verdade absoluta. No fim descobrir que em todos os lugares que eu ia, eu estava apenas procurando por mim mesma. Por essa razão de existir. Pela resposta desse medo visceral de ser apenas mais um animal, um ser autônomo que não tem outra razão de ser a não ser nascer, comer, crescer, aprender, reproduzir, envelhecer e morrer. Um ser feito apenas de verbos, nada mais que isso. Então em certo momento parei de procurar nos lugares e olhei para dentro de mim. Perfiz o caminho dos filósofos e eruditos. Dos teólogos e dos cientistas. Mas sempre batia no mesmo muro. Nas mesmas indagações cujas respostas eram outras tantas perguntas. Percebi que a resposta não deveria ser tão complexa assim, então parei de querer justificar a existência de Deus através dos meus olhos, dos meus medos, dentro dos limites do meu universo e comecei a justificar a mim mesma, procurando razões para provar que eu existo. Percebi algo incrível e ao mesmo tempo tão simplório que meu coração estremeceu de alegria, e uma sensação quente envolveu-me completamente. No meio do turbilhão de duvidas, percebi que sentia. Mais do que apenas reproduzir um comportamento, eu sentia. Sentia medo, anseio, raiva, inveja, compaixão, tristeza, culpa, alegria, amor e tantos outros sentimentos que me tornava viva, não uma condição de ser vivo, mais ser que existe, por qualquer que seja a razão dessa existência. E quando descobrir essa verdade, o encontrei. E assim como eu, ele sentia.
Ele olhou para ela surpreso.
- Mas você não disse que não encontrou Deus em lugar algum? – indagou ele de novo.
- Sim – respondeu ela – e mantenho, não existe um lugar na terra em que ele esteja, e que seja possível acha-lo. Mas existe seis bilhões de lugares nesse mundo em que ele possa nós encontrar!
A chuva desceu feito torrente, mas suas lágrimas em fim secaram. E quando finalmente a tormenta passou, ela não abriu os olhos, nem mudou de lado na cama, para aproveitar esse pequeno raio de luz solar que aquecia sua pele fria da fúria do vento. Seus pés agora percorriam outros caminhos, seus olhos já não estavam mais toldados, e ela viu, caminhando bem ao seu lado. Aquele a quem sempre procurou!