Ainda estava muito cedo, não fazia muito tempo que o sol saíra na linha
dos horizontes. Os pássaros ainda soavam sua doce melodia, o orvalho respingava
pela grama. Ali perto outro barulho preenchia o ar com seu ressoar metálico.
Em uma rua paralela a avenida principal, os homens trabalhavam agilmente para
terminar de montar as ultimas barracas, e tendas. as mulheres empilhavam com
pericia seus produtos sobre a bancada das barracas. De tudo havia um pouco,
roupa de cama, mesa e banho, plantas e animais, vestuário, frutas e verduras,
Pães, carnes e é claro as quinquilharias. De coisas usadas a engenhocas,
mirabolantes ferramentas vindas de todos os lugares do mundo, cuja utilidade
era inegável.
Além das tradicionais barracas das quinquilharias havia as barracas de
comidas. Vendia-se de tudo, de comida mineira a mexicana. Passando pelo pão de
queijo aos churros. Do pão tatu ao Hot Dog. Sempre conservando aquele toque
caseiro de comida mineira.
Apesar da hora adiantada, já havia muitas pessoas passeando por ali,
apreciando encantadas o universo de coisas expostas nas barracas. Tanta
quantidade como nunca se viu igual. Cada um seguindo a trilha de suas
preferências. Uns se perdiam na barraca de pesca e esportes, outros, na barraca
de livros e enfeites, as mulheres é claro faziam certo alarde pela quantidade
de frutas que existia nesse mundo, outras da qualidade do bordado das toalhas
de mesa, mas uma em questão passou silenciosa pelas mesmas barracas sem nem
mesmo se ater a elas.
Não era ainda uma mulher, mas uma garota, que deixava para trás aos
poucos as manias de crianças. Seu olhar perscrutava inocente o conteúdo das
barracas, mas nada parecia atraí-la. No andar cadenciado revelava um pouco de
timidez, suas mãos incertas seguravam a pequena bolsa de moedas como se fosse
seu maior amuleto. Em cada barraca em que parava as mesmas perguntas educadas.
– A moça não gostaria de comprar uns doces, são os melhores da região!
– Venha mocinha –dizia outra vendedora simpática – conhecer nossos
produtos, tenho certeza que irá gostar!
Perguntas essas que tinha o efeito contrario de assusta-la. Agradecia
envergonhada e saia de perto da barraca o mais rápido que podia.
Mas toda essa procura incerta, tinha sua lógica no final das contas.
Procurava algo que tivesse certa utilidade, amenizar suas preocupações. Não
sabia se havia ali um item de tal valor, o valor de proporciona-lhe alivio.
Então continuava a caminhar entre as barracas com os olhos atentos a
encontra-lo, percorria pela rua curva calçada de pedras, que desembocava na praça
das tradicionais quinquilharias.
Seus pés guiaram-na sem perceber, e em um momento via encantada todo o
tipo de plantas e flores, em outro, quadros ricamente pintados, estatuas,
artesanatos afins até adentrar na pracinha das bugigangas. Eram tantas e com
tantas utilidades e de tantos formatos que por um momento ela ficou parada sem
saber ao certo qual lugar olhava primeiro.
Seus pés novamente tomaram a decisão por ela e ela se viu caminhando
lentamente pelas barracas olhando de abajus que imitavam o céu, a aquários em
formatos de baús. Havia tantas coisas, que ela olhava aquele mar de invenções
como se fosse o tesouro mais precioso do mundo.
Algum tempo depois adentrou em uma tenda especialmente grande, lá dentro
ainda havia uma bagunça só e o vendedor corria feito louco para ajeitar as
coisas. No fundo uma mulher colocava agilmente o conteúdo de uma grande caixa
na banca para exposição. Assim que ela entrou na barraca o homem levantou a
cabeça do árduo trabalho com as prateleiras e a encarou.
- Por favor – apressou-se ele a dizer –queira fazer a gentileza de
esperar um pouco, vou chamar meu filho para te ajudar enquanto isso fique a
vontade.
A menina recebeu aquelas palavras com admiração. E ficou ali observando
os dois trabalharem habilmente enquanto acabava de montar as ultimas
prateleiras.
- Gui! –chamou o homem através de uma abertura no fundo da barraca
–largue essas caixas por um momento e venha atender os clientes.
- Já estou indo! –gritou de voz uma voz de menino que ela supôs chamar-se
Gui!
Ela olhava curiosa as engenhocas que a mulher ia empilhando sobre a
bancada. Entre eles muitos utensílios domésticos que eram no mínimo muito
curiosos. Interessada em ser útil de alguma forma aproximou-se da mulher.
- Éh, -começou ela incerta sobre o que falar –eu posso ajudar a senhora
de alguma forma?
A mulher levantou a cabeça da caixa e olhou para ela surpresa.
- Mas você, você é nossa cliente –disse ela com sinceridade – somos nós
que devemos ajuda-la de alguma forma!
A menina sorriu inteligente.
- Sei que farão o melhor que puderem assim que ajeitarem tudo isso aqui
–respondeu ela –mas até lá deixe-me ajuda-los e daqui a pouco o Gui vai vim
ajudar também –completou ela.
A mulher e o Homem se olharam espantados, mas por fim deram de ombros. E
ela então começou a empilhar os utensílios da mesma forma que a mulher fazia enquanto
engajava em uma conversa sobre aquele trabalho que ela considerava incrível.
Pouco tempo depois o menino chamado Gui entrou na barraca.
- Ué pai –disse ele confuso, olhando para todos os lados –você não disse
que tinha cliente?
O homem levantou novamente seus olhos concentrados das peças de
pratileiras espalhadas a sua frente e encarou o filho aéreo. Depois levantou o
dedo indicador, e mostrou a menina perto de sua mãe.
- A nossa primeira cliente é essa mocinha gentil bem ali!
O menino virou a cabeça lentamente na direção dela, e a encarou desconfiado.
- Oi Gui que bom que você chegou! –disse ela se levantando do meio das
caixas, assustando o menino ainda mais.
- Nos... Nós nos conhecemos? –indagou o menino aturdido!
- Ahhh é mesmo! –disse ela se dando conta – Ainda não! Eu me chamo Ivi e
você é o Gui né? –disse ela pegando a mão do menino e apertando entusiasmada.
- A... Acho que sim, muito prazer –concluiu ele desconcertado – então Ivi
em que posso ajudá-la?



