Para minha primeira postagem, eu tinha planejado publicar um dos meus poemas que mostrem a beleza da vida nos momentos mais simples... Mas acontecimentos recentes me levaram a publicar algo totalmente diferente, denotando a impulsividade do momento retrado nas linhas. Mas é o meu tributo, a minha eterna e querida amiga...
Lefertina...
Noite sem fim
Na escuridão da noite ouvia apenas seu pesado arfar cortando o silencio da madrugada.
O vento sussurrava melancolicamente através da janela como se ele também suspeitasse da sua dor.
Tampei os ouvidos num gesto egoísta. Ou me protegendo do fato que talvez sua pesada respiração fosse uma premissa de sua breve partida...
Transportando-me constantemente a realidade cortante do mundo em que ela não esteja. Ou mostrando-me sua agonia noite após noite. Até o seu ultimo e trêmulo suspiro.
Suspeito que chorei.
E não sei quando deixei de chorar.
Agora vejo-a sangrar impotentemente. Sem saber que na verdade quem está sangrando sou Eu! Porque não há ferimento maior que ver alguém definhar sem que se possa fazer algo... Não há nada que eu possa fazer!
Olho para minhas mãos inutilmente e me pergunto qual é a utilidade delas. Se não há nada que eu possa fazer...
De quem sangra por dentro, por um ferimento que não pode cicatrizar e também não permite esperar pela redenção. Pois quando ela se for, ele permanecerá sangrando porque ela não estará lá para preencher os espaços que ficaram vazios. Ela não se achegará mais a mim acolhendo para si o meu mudo sofrimento das minhas frias especulações humanas. Especulações que não sabem amar, pois só sabem enxergar a si próprias.
Eu nem me lembro mais quando a vi da ultima vez. Passei a maior parte do tempo olhando para os lados e sequer a enxergava. Mas ela estava lá e por mais egoísta que isso possa parecer eu gostava dessa comodidade de ter-la quando precisava que seu carinho infinito abraçasse minha alma cheia de espinhos. Imagino o quanto foi árduo a tarefa de transpassá-los e poder amar-me...
Agora sei que quando o ódio entrar no recôndito de minha alma. Ela não estará lá para aquecê-lo com seu amor incondicional e silencioso.
Ela nunca disse nada... Ou fui eu que nunca quis escutá-la? Agora tenho medo de que seu eu pudesse, por uma fração de segundo escutar toda a manifestação da dor que ela sente. Penso que isso me seguiria para o resto de minha vida.
Eu queria tanto abreviar esse estado de sofridão perpetua que todo ser está condicionado a passar pelo simples fato de existir. E deixá-la descansar em um sono quente e confortável, e vê-la partir sem nada sofrer. Mas acho que são as marcas dessas experiências que devem se fazer sentir por nós para que possamos provar o doce amargo gosto da humildade.
Penso que partir seja algo bom comparado ao que vivenciamos dia após dia. Mas essa não seria mais uma faceta do meu sistema de defesa criando a ilusão que ela estará bem embora ela não esteja mais por perto? Ou que na verdade ela não esteja sofrendo quanto eu ache porque na verdade a alma dela não está mais enraizada em seu corpo? Prefiro adiar minha resolução. Isso não muda o fato que em breve serei apenas eu e ela terá ido. Não consigo fazer nenhum esforço e pensar em algo bom, para tentar inludibriar a mim mesma. Ainda ouço o pesado som do seu esforçoso respirar. Sei que dói, mas não tenho noção da imensidão de sua dor. Isso me diminui bastante porque pela primeira vez vejo o tão insignificante eu sou. Ela me olha de soslaio. Seu olhos caídos me pedem carinho... Corro e a abraço. Com a certeza de que não saberei por quanto tempo ainda poderia fazer isso...

