quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Tentação no Deserto

E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.

Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles.

E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás”.
(Mateus 4:3-10)

 


 

Como podem ver, hoje trago uma proposta diferente de texto. Geralmente eu gosto de publicar algum poema, crônica ou trechos de alguma historia em que eu esteja trabalhando há tempos. Porém hoje tive um insight criativo tendendo para um lado mais religioso. E esses insights estão ficando cada vez mais recorrentes, o que já é alivio pois há tempos não tenho uma inspirasãozinha que seja. Um dia desses comecei a escrever algo relativo as memórias da cozinha, uma inspiração poética que me lembrou de momentos deliciosos na cozinha da minha tia. Mas deixei a ideia morrer, em partes pelo menos. Ainda pretendo resgatá-la. Mas esse texto que trago hoje surgiu na minha cabeça de manhã, enquanto eu arrumava as malas para viajar a trabalho e rapidamente tratei de colocar os pontos mais importantes do texto no papel e graças a isso pude trabalhar nesse texto, que diferente das coisas que eu costumo escrever, é um texto devocional. O Primeiro que faço nesse sentido. Mas como sou escritora ele ficou meio poético. Então espero que gostem, curtem e compartilhem.

 

Link para o texto Integral aqui

 

Carla Valadares


terça-feira, 9 de junho de 2020

A porta do Sábio

Boa noite, como vão? Espero que estejam bem. Hoje eu trago um trecho da segunda história que estou desenvolvendo ainda dentro da temática “As crônicas do amanhã perdido”.

Esse livro tem um contexto mais espiritual, e não poderia ser diferente, pois sendo quem sou e acreditando em quem acredito (a saber Deus e Jesus, nosso salvador), não tem como não retratar a minha fé em diferentes histórias.

E cá entre nós, excetuando a primeira história das Crônicas do Amanhã perdido que já estou na metade e rumo a publicação (se Deus assim o permitir), as histórias que retratam a minha fé são aquelas que eu considero mais profundas e mais poéticas.

Bem pelo menos na minha concepção.

E essa segunda história retrata um homem que vaga pelo, o que podemos chamar de Limbo, mas nós cristãos protestantes não acreditamos nesse lugar de passagem e penitência. Mas acreditamos que há momentos ou circunstâncias que levam as pessoas a terem experiências reais com Deus, estando elas dormindo placidamente em suas camas, ou em situações de vida ou morte.

E esse homem vagueia nesse lugar buscando o sentido da vida.

Nesse trecho em específico trago uma temática critica com relação aos “pais” da prática pedagógica em vigor no Brasil, que tem pauperizando a nossa educação há, pelo menos, meio século.

Aí você vai me perguntar: mas você não disse que essa história tinha um viés espiritual e agora tá dizendo que há uma crítica ao sistema educacional brasileiro, como pode uma coisa ter haver com a outra?

Simples meu caro, Efésios 6:12:


“Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”.


O que acontece no mundo real, espelha a luta que ocorre no mundo espiritual. E o que está acontecendo com a educação brasileira é sim, na minha concepção, uma destruição que partiu do mundo espiritual.

É nesse sentido que reside minha crítica, ao legado que aqui enseja e o que deu lugar a esse legado no “abismo”.

Em fim, deixo aqui o link para o texto e espero sinceramente que gostem. E se gostarem compartilhem.


Um grande abraço👧😊😘

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Capitulo Extra

Olá como estão? Eu me chamo Carla e hoje eu trago uma prévia do livro que, se Deus quiser, irei publicar.
Eu comecei a delinear uma série de livros críticos quanto a sociedade em que vivemos, e no mesmo instante tive várias ideias. E elas surgiram na minha cabeça no primeiro semestre de 2013, sim foi nessa época que comecei a pensar nessas histórias. E a circunstâncias do nascimento delas é pra mim o mais estranho disso tudo. 
Estava eu, num manhã ensolarada e meio fria, morrendo de tédio em uma sala de aula da faculdade. Ainda me lembro o nome do professor, todos o chamavam de Lobo. Mas a aula dele era incrivelmente maçante, ainda mais se considerar que a aula era ministrada de manhã e eu particularmente nunca acordo direito antes das 10h. Um hábito horrível da minha parte, admito. 
Outro habito horrível da minha parte é que não consigo ficar parada sem fazer nada, e naquele momento não havia nada que me prendesse a atenção e por Deus eu havia tentado muito prestar atenção na aula. Então passei a fazer o que faço melhor, fui escrever e nesse dia escrevi o que era para mim um pequeno Conto. Que passou a ter, pouco a pouco, uma dimensão tão grande que não podia caber mais em um pequeno conto. 
A historia foi ganhando contornos reais e escondia uma critica muito oportuna. Aí encorajada por esse senso critico da realidade delineie outros pontos que naquela época eu tinha por certo que era um problema muito sério em nossa sociedade. Devo dizer, porém, que graças a Deus eu evolui e com essa evolução os meus achismos sobre o que é certo e errado também evoluíram. Mas alguns pontos críticos ainda permaneceram e são esses que merecem ter todo umas historia por trás: a corrupção, os maus-tratos aos animais e a forma como nossa sociedade cuida da sua própria casa: a terra. Esse ultimo ponto é fruto das ideologias apregoadas pela academia mas que recebido a devida reconsideração é ainda um assunto que merece atenção.
E a minha grande primeira ideia foi criar um titulo que abarcasse todo essa critica que queria desenvolver. Então o titulo surgiu primeiro, e as ideias vieram como consequência desse titulo. Eu coloquei o nome dele de Crônicas do Amanhã Perdido.
De 2013 para cá infelizmente muito dessas ideias perderam todo o sentido na minha cabeça, e elas foram sendo deixadas de lado. Mas duas em especial ganharam força e foram sendo moldadas a medida que eu mesma fui crescendo e aprendendo coisas novas. Essa historia que trago hoje foi a primeira que escrevi, ela ficou esquecida algumas vezes, mas ela meio que ganhou vida própria e volta e meia retorna em minha cabeça gritando por uma conclusão. E estou chegando lá, falta pouco. Mas eu tive uns Insigths sobre essa historia, nascida da minha frustração com os grandes escritores de ficção em geral que nunca escrevem um capitulo extra de como os personagens estão passado a trama da historia. Então eu resolvi que essa historia teria alguns capítulos extras que eu publicaria especificamente na internet. Essas historias extras não dependem da historia do livro para ser compreendidas, é com um pequeno conto. Mas ainda assim, muito legais. Atualmente me propus a escrever três contos, um está pronto os outros vou escrever depois que a historia estiver finalmente concluída.
Então é isso, deixo nesse link o capitulo extra número um, espero que gostem.

Um grande Abraço😊😘

Obs: a imagem de um casarão que peguei aleatoriamente na internet tem um porquê: a historia que estou escrevendo se passa num casarão colonial.

domingo, 31 de maio de 2020

Contos Apocalipticos - Dois


Os contos Apocalípticos nasceram dessa série Contos Inacabados. Por que inacabados? Porque a fonte de inspiração que gerou esses contos no meu coração é viva. E a cada instante uma nova historia poderá surgir dela. E a fonte, é claro, não poderia ser outra a não ser a sempre viva palavra de Deus.



Hoje trago o conto Dois. Talvez mais para frente eu escreva mais contos de apocalipse, mas como sempre, estou completamente dependente da vontade de Deus. Então a série Contos Inacabados é essa compilação delicada e inspiradora da Bíblia, e a própria a Bíblia como sabem ainda tem muito o que falar.
Hoje pensei em fazer diferente, em vez de simplesmente copiar e colar a historia aqui, resolvi deixar um link onde se poderá baixá-la. Assim essa postagem fica menos densa e você poderá ler o conto aonde quiser.

No mais um grande abraço

Espero que gostem😊💖😊💖

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Contos Apocalipticos

Um


O Café escoava lentamente pelo filtro. Da sala, vinha o som monótono e cotidiano dos noticiários.
A Organização Mundial de Saúde prevê uma nova onda do surto de… caso os países insistam em não tomar medidas mais eficazes no combate à epidemia…”
Aqui no Brasil, continua o embate politico entre o Congresso e o Governo Federal sobre o valor do Auxilio Emergencial…”
Ela pegou uma caneca de café recém-passado e sentou-se à mesa. Entre um gole e outro da bebida abençoadamente quente, ela passou os olhos pela página inicial do Instagram.
Enquanto as imagens rolavam pela tela, ela fez anotações mentais do que precisava fazer mais tarde, das coisas que tinha de comprar para o aniversário da sua loja, da reunião com um de seus fornecedores, entre tantas outras coisas mais.
Vamos agora à previsão do tempo para toda a semana…”
Na tela do celular, ela via as fotos da última viagem que o seu antigo colega de faculdade havia feito.
- Egito?! Meu Deus! Onde é que esse cara arruma tanto dinheiro para viajar direto e reto assim? – disse ela com uma pontinha de inveja.
De repente, um som distante, como uma leve batida à porta, se fez ouvir. Ela levantou sobressaltada. O movimento repentino fez com que respingasse um pouco de café na tela do celular.
- Ai caramba! - reagiu ela, procurando desesperadamente por um pano para poder secar o aparelho, antes que alguma gota de pura cafeína adentrasse por seus circuitos.
Quando ela finalmente limpou o celular, já havia esquecido do som que acabara de escutar.
Na televisão uma breve pausa entre o telejornal, abriu espaço para a costumeira propaganda comercial.
“… Limpa 3x mais que qualquer alvejante que você encontra no mercado…”
Dois apitos seguidos indicaram novas mensagens em seu Whatsapp. Ela olhou por alto, enquanto bebericava o café, mas ignorou todas elas.
“…Fique em casa!”
Precisa de empréstimo?…”
Inquieta ela abriu o YouTube e, da mesma forma automática passou os olhos pela página inicial, mas parecia que nada podia prender a sua atenção.
Novamente aquela batida baixinha se fez ouvir.
Ela levantou os olhos da tela do celular e pôs-se a ouvir atentamente.
A batida se fazia ouvir em intervalos regulares. Ritmada, baixinho, mas não menos insistente.
Ela olhou por baixo da mesa e, curiosamente, o seu cachorro super-barulhento estava roncando alto em um sono profundo dos que se sentiam seguros, sem nenhum invasor de território à vista.
Ela levou os olhos na direção da janela, mas o barulho havia parado mais uma vez.
Novante ela voltou a sua atenção para o celular em suas mãos e foi passando pelos títulos dos vídeos na página inicial do YouTube. Passava por receitas, dicas de tricô, Mix de clipes da sua banda favorita, até que um título em especial, chamou a sua atenção:
O grito da meia-noite
Era o título da pregação de um conhecido pastor.
“…falta 100 segundos para a meia-noite… – dizia o correspondente à edição matinal do seu jornal favorito.
- Hã?! – disse ela extremamente confusa, e correu até a sala para ver que coincidência bizarra fora aquela.
“…o relógio do juízo final – prosseguiu o jornalista – também chamado de relógio do apocalipse, é um relógio simbólico, criado em 1947 por um grupo de cientistas da Universidade de Chicago. O dispositivo utiliza uma analogia onde a raça humana…”
E novamente a batida.
“… está a minutos para a meia-noite…”
E a batida prosseguia daquela mesma forma ritmada, mas parecia crescer de intensidade.
“…onde a meia-noite representa a destruição por uma guerra nuclear…”
E o cachorro se esticou todo, deu um enorme bocejo e voltou a dormir.
Intrigada, ela foi até a porta da sala, e olhou na direção do portão. Dali era visível qualquer pé que estivesse na calçada em frente à sua casa. Porém, não havia ninguém…
- Mia… – ouviu alguém sussurrar o seu nome ao longe, mas fora ela e o seu cachorro, que havia voltado a roncar, não havia mais ninguém em casa.
A batida continuava.
Ela olhou em todas as direções, buscando a origem daquele som, até que seus olhos passaram por cima do muro que separava a sua casa da rua e pousaram um pouco à esquerda, em cima do poste onde viu, um pica-pau atacando vorazmente o velho poste de madeira.
Parecia que o mistério acerca do barulho havia sido solucionado.
Mas uma nova inquietação havia tomado o seu ser.
Voltou até a cozinha onde havia deixado o celular e, destravando-o novamente, voltou àquele mesmo vídeo que havia chamado a sua atenção. Mas o título que agora via, era completamente diferente do que tinha visto anteriormente, apesar da imagem que aparecia junto ao título, fosse a mesma. O título de agora era: O despertar de Enoque.
Curiosa, foi até o quarto e resgatou a sua negligenciada Bíblia. Voltou para a sala, desligou a TV. Se acomodou no sofá e deu início ao vídeo. Assim que o vídeo começou, o pastor pediu que abrisse a Bíblia no livro de Gêneses. Mas assim que abriu a Bíblia, as folhas pularam teimosamente até o final do livro, onde havia deixado, um lindo marcador de página. Ela até havia se esquecido que deixara ele ali. Havia sido um presente que sua irmã havia lhe dado.
Retirou o marcador da página, e pela primeira vez viu em que livro o marcador havia sido deixado: o livro de Apocalipse. E de toda a página, apenas um versículo havia sido destacado com marcador de texto amarelo neon, por ela mesma, tempos atrás:


Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”.


Imediatamente aquela batida suave se fez ouvir novamente, e ela soube que não era o pica-pau que produzia esse som. E uma alegria que excede a mais pura felicidade tomou conta do seu ser, lançando fora toda sua inquietação. Já não estava mais sozinha.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Contos Inacabados (Série)

“Também no deserto vocês viram como o Senhor, o seu Deus, os carregou,
como um pai carrega seu filho, por todo o caminho que percorreram
até chegarem a este lugar.”

Deuteronômio 1:31





- Hoje eu vou te contar a historia – sussurrou o Ancião, pegando na pequena arca no canto de sua tenda uma manta para se aquecer.
Ao seu lado o outro homem se manteve paciente a espera. O velho então saiu da Tenda, seus passos vacilantes, pelo peso da idade. O homem limitou-se a segui-lo. Lá fora a noite repleta de cores, de musicas e sorrisos. Todos cantavam e entoavam seus hinos. Dançavam ao redor da musica, iluminados por imensas fogueiras. O velho não se deteve em nenhum lugar, passou por todos com uma desenvoltura tal que surpreendeu o homem.
Ele cumprimentava um ali outro aqui. Perguntava sobre alguém, mandava lembranças para outrem, mas nunca se detia, sempre seguia em frente. Deu a volta por tendas e mais tendas, até que a musica, os risos e a alegria foram ficando para atrás. Chegaram ao pé de uma grande elevação, ali as tendas acabavam. O Ancião então se pôs a subir com alguma dificuldade. O homem, porém, permaneceu atrás dele, em profundo silencio, sem nunca se adiantar ao velho, ou oferecer-lhe ajuda. Seguia seu fluxo, seu tempo, num ritmo lento a espera do que outro tinha para lhe contar.
Depois de uma longa subida, eles finalmente alcançam o topo da elevação. O Ancião então olhou para o lado e para o outro e então continuou a caminhada em direção a uma planície, um pouco abaixo de onde estavam. Após algum tempo de caminhada, o velho olhou novamente de um lado para o outro, da planície a frente ao céu estrelado.
- É! aqui está bom – concluiu ele satisfeito, e com alguma dificuldade ele se senta sobre uma rocha solta sobre a areia. Depois de algum tempo ajeitando suas vestes, ele olha para os lados e não vê o outro homem. Olha para trás sorri e chama o homem para vim sentar junto de si.
O homem senta sobre a areia e encara a imensidão do deserto a frente. O céu parecia uma tapeçaria, finamente trabalhada, uma imensidão escura, sem luar, mas as estrelas brilhavam com tamanha força que bordejavam a escuridão com suas luzes douradas e azuladas.



- A história que vou te contar – disse o velho, após um longo silencio – me foi contada pelo meu pai, e a ele pelo pai dele. São historias antigas passadas de geração em geração, muitas delas se perderam. Não se sabe se elas são verdadeiras, mas elas ainda são contadas por nosso povo. Sussurras nas cantigas, ensinadas a nossas crianças. Talvez você não a tenha ouvido, porque não cresceu entre nós, e muitos de nós deixaram de contar essas historias, de modo que nem todos se lembram dela mais. O que me foi passado é apenas um fragmento, você ainda quer ouvir?
O homem voltou seu olhar para o senhor ao seu lado.
- Sim eu quero – disse ele.
O Ancião meneou a cabeça, deixou seu olhar vagar pelo céu estrelado, respirou fundo e começou:

“Havia um tempo, que até o tempo não existia. Tudo era vazio e escuro. Não havia céu nem estrelas, não havia sol, nem dia, não havia nada, tudo era uma noite sem fim, um dia de tempestade sem chuva, sem som, sem luz. Sobre a noite eternamente nublada, havia um oceano plácido, nada perturbava aquelas águas, nenhuma onda, nenhum vento, ele era tão silencioso e vazio como o céu sobre ele e refletia a mesma escuridão. E no meio desse oceano havia uma grande ilha imersa na escuridão reinante e sobre ela um grande abismo.
De repente, uma estrela irrompe naquele céu, descendo como uma estrela cadente em uma velocidade espantosa, e no ápice de sua trajetória, ela desacelera e começa a descer lentamente sobre o oceano escuro e profundo.
Sua luz é como um farol na escuridão. Sua presença quente e suave que resplandece com o brilho de mil sóis. Aos poucos a estrela vai se transformando, seu brilho se torna branco como a neve e sobre a luz alva surgem duas pernas, troncos e braços. Vestes douradas recobrem o seu corpo, que se assemelhava a uma miragem num fim de uma longa noite. Parecia flutuar e fenecer para depois ressurgir com toda a sua glória. Por fim a cabeça surge sobre aquela luz poderosa. Olhos dourados e solenes contemplavam a imensa escuridão.
Ele então olha para cima, para o céu tempestuoso sobre a sua cabeça, olha novamente para baixo e a tempestade se reflete ali, como em um espelho. Até a noção de cima e baixo parecia invertido, nem a sua luz que saia de seu corpo era capaz de romper a escuridão nesse abismo. Tudo era escuro. Não havia nada. Só o vazio e ele, a pairar sobre a face das águas.
Ele encara a superfície vítrea do oceano e vê a sua imagem refletida, o resplendor contido em seus olhos. A consciência do que fazer em seguida se debatendo com a certeza daquilo que estava por vim. Podia sentir a dor e a alegria do trabalho que o aguardava, os detalhes planejados sendo rigorosamente executados. Sonhos tomando forma, cores preenchendo a escuridão com sua viva alegria.
Contudo podia vislumbrar também o que veria depois, quando tudo estivesse acabado. Podia ouvir o eco dos lamentos. O choro. As injustiças. Suas vozes até ali eram como um torno a apertar seu coração.
Ele sabia o que tinha de fazer: Fazer mover a roda do tempo e deixar que as águas se movam pelo oceano. Então uma palavra pulsou fortemente em seu íntimo e, movido pela força dessa palavra, ele ordenou:
- Haja luz!
E sobre essa ordem brilhou a luz da sua criação. Tomou forma céu e terra, dia e noite, montanhas e vales, rios e mares, e seres que abundaram e habitaram sobre essa terra e tudo o que os seus olhos podem ver, fora feito por suas mãos, inclusive eu e você.
Essa história fora contada a meus antepassados por um homem que peregrinava por esta terra, vindo desde Lude, passando por Gômer, Assur, Canaã, chegando até o Oriente.
E essas coisas das quais disse foi dado a conhecer a esse povo que habita em Canaã e todos os outros povos foram deixados na cegueira da escuridão até que a palavra saia do seu coração e se torne viva”.
- E quando será isso?
O ancião olhou para o seu interlocutor com bondade, depois voltou a contemplar o céu estrelado.
Algum tempo depois ele voltou a falar.
- Ele é o Senhor do tempo, então pode ser em um piscar de olhos ou pode ser mil anos não importa, aquele que fez tudo isso é plenamente capaz de cumprir as suas promessas.
- O seu povo já esteve em Canaã?
O senhor sorriu.
- Não.
- E tem vontade de conhecer esse povo a quem foi concedido saber essas coisas?
- Não – disse ele novamente – eu tenho vontade de servir o Deus deles, que fez todas essas coisas. Mas tudo nos será dado a conhecer também em algum momento e aí poderemos servi-lo com todo o nosso coração.
O homem que estivera perdido pelo deserto, mas que no seu desespero se deparou com esse povo nômade. Sentiu a bondade daquele senhor irradiar para dentro de seu coração entorpecido e assim como o ancião também pôs-se a contemplar aquele vasto céu salpicado de estrelas.
Ao longe as festas e danças continuavam. No cume da elevação apareceram algumas crianças que chamavam aquele Senhor ao longe. Ele gritou uma resposta de volta e elas puseram-se a correr na sua direção. E naquela algazarra o homem lembrou de algo muito importante e voltou-se para o ancião.
- E qual era a palavra?
O velho então se voltou para ele e sussurrou:
- Yeshua.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A tapeçaria



Uma pequena gota despenca na escuridão
Cai sobre a superfície lisa e inquebrável de um grande oceano
O som reverbera pelo espaço e ecoa nos recônditos mais distantes daquela escuridão sem fim
E cria sobre a superfície lisa daquele mar, pequenas marolas
Que se propagam continuamente
Criando linhas sobre linhas

Um verdadeiro mosaico geométrico,
Caprichosamente bordado sobre a água profunda e negra



Outra gota cai
E uma nova onda de marolas se agita sobre a primeira
Recriando as linhas
Dando forma aos bordados desse mar
Nesse caprichoso tecido

E mais uma gota ecoa singela nessa imensidão escura
E propaga intensa sobre o tecido bordado
Criando formas e cores
De repente uma linha amarela pulsante se desprende das bordas desse mosaico de ondas
E pinta a escuridão com linhas de calor terno sobre a superfície desse mar
E um lindo alvorecer espanta aos poucos aquela escuridão eterna

E antes que esses raios de luz intensa pudessem despontar sobre o horizonte
Outra gota cai agitando ainda mais as linhas dessa renda delicadamente tecida
As linhas saltam e rodopiam ganhando vida
Vários peixes de uma infinidade de cores e formas saem nadando por entre as linhas agitadas
Saltando alegres, a superfície, ganhando oceanos

Uma brisa começa a soprar acompanhando as ondas desse mar
Os raios despontam para além da borda daquele oceano
É chegado um novo dia


Uma nova gota cai
E mais linhas finamente bordadas se agitam e pulsam querendo sair
Uma linha especialmente curva se eleva e sai cavalgando as ondas desse mar
Outras logo o seguem
O som dos cacos a bater suavemente sobre as águas deixando um rastro de luz por onde passam
Algumas linhas se contorcem e pulam agitadas acima da superfície da água e sobem, sobem até quase tocar o céu
E expande para alem do horizonte acompanhando a corrida dos cavalos.
Para depois se aquietarem umas sobre as outras formando colinas, e extensas faixas de terras verdejantes




E sobre a brisa, que sopra sobre esse mar perturbado
Novas criaturas saltam para além das bordas da tapeçaria
Aves com suas plumas coloridas, macacos, elefantes, onças e tanto quanto cabia naquelas linhas de ondas pulsantes de vida.

Uma ultima gota cai na imensidão dos céus e reverbera com força sobre a tapeçaria.
Todos param para ver
E uma linha singela se forma e se eleva aos poucos sobre a água agitada.
Ela toma, por fim, forma e um humano se ergue
Acima, nos céus
O criador enxuga as suas lagrimas, e olha com carinho para cada linha tecida de seu bordado
Ele puxa o ar com toda sua força e sopra
O homem então abre os olhos...