Um
O
Café escoava lentamente pelo filtro. Da sala, vinha o som monótono
e cotidiano dos noticiários.
“A
Organização Mundial de Saúde prevê uma nova onda do surto de…
caso os países insistam em não tomar medidas mais eficazes no
combate à epidemia…”
“Aqui
no Brasil, continua o embate politico entre o Congresso e o Governo
Federal sobre o valor do Auxilio Emergencial…”
Ela
pegou uma caneca de café recém-passado e sentou-se à mesa. Entre
um gole e outro da bebida abençoadamente quente, ela passou os olhos
pela página inicial do Instagram.
Enquanto
as imagens rolavam pela tela, ela fez anotações mentais do que
precisava fazer mais tarde, das coisas que tinha de comprar para o
aniversário da sua loja, da reunião com um de seus fornecedores,
entre tantas outras coisas mais.
“Vamos
agora à previsão do tempo para toda a semana…”
Na
tela do celular, ela via as fotos da última viagem que o seu antigo
colega de faculdade havia feito.
-
Egito?! Meu Deus! Onde é que esse cara arruma tanto dinheiro para
viajar direto e reto assim? – disse ela com uma pontinha de inveja.
De
repente, um som distante, como uma leve batida à porta, se fez
ouvir. Ela levantou sobressaltada. O movimento repentino fez com que
respingasse um pouco de café na tela do celular.
-
Ai caramba! - reagiu ela, procurando desesperadamente por um pano
para poder secar o aparelho, antes que alguma gota de pura cafeína
adentrasse por seus circuitos.
Quando
ela finalmente limpou o celular, já havia esquecido do som que
acabara de escutar.
Na
televisão uma breve pausa entre o telejornal, abriu espaço para a
costumeira propaganda comercial.
“… Limpa
3x mais que qualquer alvejante que você encontra no mercado…”
Dois
apitos seguidos indicaram novas mensagens em seu Whatsapp. Ela olhou
por alto, enquanto bebericava o café, mas ignorou todas elas.
“…Fique
em casa!”
“Precisa
de empréstimo?…”
Inquieta
ela abriu o YouTube e, da mesma forma automática passou os olhos
pela página inicial, mas parecia que nada podia prender a sua
atenção.
Novamente
aquela batida baixinha se fez ouvir.
Ela
levantou os olhos da tela do celular e pôs-se a ouvir atentamente.
A
batida se fazia ouvir em intervalos regulares. Ritmada, baixinho, mas
não menos insistente.
Ela
olhou por baixo da mesa e, curiosamente, o seu cachorro
super-barulhento estava roncando alto em um sono profundo dos que se
sentiam seguros, sem nenhum invasor de território à vista.
Ela
levou os olhos na direção da janela, mas o barulho havia parado
mais uma vez.
Novante
ela voltou a sua atenção para o celular em suas mãos e foi
passando pelos títulos dos vídeos na página inicial do YouTube.
Passava por receitas, dicas de tricô, Mix de clipes da sua banda
favorita, até que um título em especial, chamou a sua atenção:
O
grito da meia-noite
Era
o título da pregação de um conhecido pastor.
“…falta
100 segundos para a meia-noite… – dizia o correspondente à
edição matinal do seu jornal favorito.
-
Hã?! – disse ela extremamente confusa, e correu até a sala para
ver que coincidência bizarra fora aquela.
“…o
relógio do juízo final – prosseguiu o jornalista – também
chamado de relógio do apocalipse, é um relógio simbólico, criado
em 1947 por um grupo de cientistas da Universidade de Chicago. O
dispositivo utiliza uma analogia onde a raça humana…”
E
novamente a batida.
“… está
a minutos para a meia-noite…”
E
a batida prosseguia daquela mesma forma ritmada, mas parecia crescer
de intensidade.
“…onde
a meia-noite representa a destruição por uma guerra nuclear…”
E
o cachorro se esticou todo, deu um enorme bocejo e voltou a dormir.
Intrigada,
ela foi até a porta da sala, e olhou na direção do portão. Dali
era visível qualquer pé que estivesse na calçada em frente à sua
casa. Porém, não havia ninguém…
-
Mia… – ouviu alguém sussurrar o seu nome ao longe, mas fora ela
e o seu cachorro, que havia voltado a roncar, não havia mais ninguém
em casa.
A
batida continuava.
Ela
olhou em todas as direções, buscando a origem daquele som, até que
seus olhos passaram por cima do muro que separava a sua casa da rua e
pousaram um pouco à esquerda, em cima do poste onde viu, um pica-pau
atacando vorazmente o velho poste de madeira.
Parecia
que o mistério acerca do barulho havia sido solucionado.
Mas
uma nova inquietação havia tomado o seu ser.
Voltou
até a cozinha onde havia deixado o celular e, destravando-o
novamente, voltou àquele mesmo vídeo que havia chamado a sua
atenção. Mas o título que agora via, era completamente diferente
do que tinha visto anteriormente, apesar da imagem que aparecia junto
ao título, fosse a mesma. O título de agora era: O despertar de
Enoque.
Curiosa,
foi até o quarto e resgatou a sua negligenciada Bíblia. Voltou para
a sala, desligou a TV. Se acomodou no sofá e deu início ao vídeo.
Assim que o vídeo começou, o pastor pediu que abrisse a Bíblia no
livro de Gêneses. Mas assim que abriu a Bíblia, as folhas pularam
teimosamente até o final do livro, onde havia deixado, um lindo
marcador de página. Ela até havia se esquecido que deixara ele ali.
Havia sido um presente que sua irmã havia lhe dado.
Retirou
o marcador da página, e pela primeira vez viu em que livro o
marcador havia sido deixado: o livro de Apocalipse. E de toda a
página, apenas um versículo havia sido destacado com marcador de
texto amarelo neon, por ela mesma, tempos atrás:
“Eis
que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a
porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”.
Imediatamente
aquela batida suave se fez ouvir novamente, e ela soube que não era
o pica-pau que produzia esse som. E uma alegria que excede a mais
pura felicidade tomou conta do seu ser, lançando fora toda sua
inquietação. Já não estava mais sozinha.

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