sexta-feira, 22 de março de 2019

Contos Inacabados (Série)

“Também no deserto vocês viram como o Senhor, o seu Deus, os carregou,
como um pai carrega seu filho, por todo o caminho que percorreram
até chegarem a este lugar.”

Deuteronômio 1:31





- Hoje eu vou te contar a historia – sussurrou o Ancião, pegando na pequena arca no canto de sua tenda uma manta para se aquecer.
Ao seu lado o outro homem se manteve paciente a espera. O velho então saiu da Tenda, seus passos vacilantes, pelo peso da idade. O homem limitou-se a segui-lo. Lá fora a noite repleta de cores, de musicas e sorrisos. Todos cantavam e entoavam seus hinos. Dançavam ao redor da musica, iluminados por imensas fogueiras. O velho não se deteve em nenhum lugar, passou por todos com uma desenvoltura tal que surpreendeu o homem.
Ele cumprimentava um ali outro aqui. Perguntava sobre alguém, mandava lembranças para outrem, mas nunca se detia, sempre seguia em frente. Deu a volta por tendas e mais tendas, até que a musica, os risos e a alegria foram ficando para atrás. Chegaram ao pé de uma grande elevação, ali as tendas acabavam. O Ancião então se pôs a subir com alguma dificuldade. O homem, porém, permaneceu atrás dele, em profundo silencio, sem nunca se adiantar ao velho, ou oferecer-lhe ajuda. Seguia seu fluxo, seu tempo, num ritmo lento a espera do que outro tinha para lhe contar.
Depois de uma longa subida, eles finalmente alcançam o topo da elevação. O Ancião então olhou para o lado e para o outro e então continuou a caminhada em direção a uma planície, um pouco abaixo de onde estavam. Após algum tempo de caminhada, o velho olhou novamente de um lado para o outro, da planície a frente ao céu estrelado.
- É! aqui está bom – concluiu ele satisfeito, e com alguma dificuldade ele se senta sobre uma rocha solta sobre a areia. Depois de algum tempo ajeitando suas vestes, ele olha para os lados e não vê o outro homem. Olha para trás sorri e chama o homem para vim sentar junto de si.
O homem senta sobre a areia e encara a imensidão do deserto a frente. O céu parecia uma tapeçaria, finamente trabalhada, uma imensidão escura, sem luar, mas as estrelas brilhavam com tamanha força que bordejavam a escuridão com suas luzes douradas e azuladas.



- A história que vou te contar – disse o velho, após um longo silencio – me foi contada pelo meu pai, e a ele pelo pai dele. São historias antigas passadas de geração em geração, muitas delas se perderam. Não se sabe se elas são verdadeiras, mas elas ainda são contadas por nosso povo. Sussurras nas cantigas, ensinadas a nossas crianças. Talvez você não a tenha ouvido, porque não cresceu entre nós, e muitos de nós deixaram de contar essas historias, de modo que nem todos se lembram dela mais. O que me foi passado é apenas um fragmento, você ainda quer ouvir?
O homem voltou seu olhar para o senhor ao seu lado.
- Sim eu quero – disse ele.
O Ancião meneou a cabeça, deixou seu olhar vagar pelo céu estrelado, respirou fundo e começou:

“Havia um tempo, que até o tempo não existia. Tudo era vazio e escuro. Não havia céu nem estrelas, não havia sol, nem dia, não havia nada, tudo era uma noite sem fim, um dia de tempestade sem chuva, sem som, sem luz. Sobre a noite eternamente nublada, havia um oceano plácido, nada perturbava aquelas águas, nenhuma onda, nenhum vento, ele era tão silencioso e vazio como o céu sobre ele e refletia a mesma escuridão. E no meio desse oceano havia uma grande ilha imersa na escuridão reinante e sobre ela um grande abismo.
De repente, uma estrela irrompe naquele céu, descendo como uma estrela cadente em uma velocidade espantosa, e no ápice de sua trajetória, ela desacelera e começa a descer lentamente sobre o oceano escuro e profundo.
Sua luz é como um farol na escuridão. Sua presença quente e suave que resplandece com o brilho de mil sóis. Aos poucos a estrela vai se transformando, seu brilho se torna branco como a neve e sobre a luz alva surgem duas pernas, troncos e braços. Vestes douradas recobrem o seu corpo, que se assemelhava a uma miragem num fim de uma longa noite. Parecia flutuar e fenecer para depois ressurgir com toda a sua glória. Por fim a cabeça surge sobre aquela luz poderosa. Olhos dourados e solenes contemplavam a imensa escuridão.
Ele então olha para cima, para o céu tempestuoso sobre a sua cabeça, olha novamente para baixo e a tempestade se reflete ali, como em um espelho. Até a noção de cima e baixo parecia invertido, nem a sua luz que saia de seu corpo era capaz de romper a escuridão nesse abismo. Tudo era escuro. Não havia nada. Só o vazio e ele, a pairar sobre a face das águas.
Ele encara a superfície vítrea do oceano e vê a sua imagem refletida, o resplendor contido em seus olhos. A consciência do que fazer em seguida se debatendo com a certeza daquilo que estava por vim. Podia sentir a dor e a alegria do trabalho que o aguardava, os detalhes planejados sendo rigorosamente executados. Sonhos tomando forma, cores preenchendo a escuridão com sua viva alegria.
Contudo podia vislumbrar também o que veria depois, quando tudo estivesse acabado. Podia ouvir o eco dos lamentos. O choro. As injustiças. Suas vozes até ali eram como um torno a apertar seu coração.
Ele sabia o que tinha de fazer: Fazer mover a roda do tempo e deixar que as águas se movam pelo oceano. Então uma palavra pulsou fortemente em seu íntimo e, movido pela força dessa palavra, ele ordenou:
- Haja luz!
E sobre essa ordem brilhou a luz da sua criação. Tomou forma céu e terra, dia e noite, montanhas e vales, rios e mares, e seres que abundaram e habitaram sobre essa terra e tudo o que os seus olhos podem ver, fora feito por suas mãos, inclusive eu e você.
Essa história fora contada a meus antepassados por um homem que peregrinava por esta terra, vindo desde Lude, passando por Gômer, Assur, Canaã, chegando até o Oriente.
E essas coisas das quais disse foi dado a conhecer a esse povo que habita em Canaã e todos os outros povos foram deixados na cegueira da escuridão até que a palavra saia do seu coração e se torne viva”.
- E quando será isso?
O ancião olhou para o seu interlocutor com bondade, depois voltou a contemplar o céu estrelado.
Algum tempo depois ele voltou a falar.
- Ele é o Senhor do tempo, então pode ser em um piscar de olhos ou pode ser mil anos não importa, aquele que fez tudo isso é plenamente capaz de cumprir as suas promessas.
- O seu povo já esteve em Canaã?
O senhor sorriu.
- Não.
- E tem vontade de conhecer esse povo a quem foi concedido saber essas coisas?
- Não – disse ele novamente – eu tenho vontade de servir o Deus deles, que fez todas essas coisas. Mas tudo nos será dado a conhecer também em algum momento e aí poderemos servi-lo com todo o nosso coração.
O homem que estivera perdido pelo deserto, mas que no seu desespero se deparou com esse povo nômade. Sentiu a bondade daquele senhor irradiar para dentro de seu coração entorpecido e assim como o ancião também pôs-se a contemplar aquele vasto céu salpicado de estrelas.
Ao longe as festas e danças continuavam. No cume da elevação apareceram algumas crianças que chamavam aquele Senhor ao longe. Ele gritou uma resposta de volta e elas puseram-se a correr na sua direção. E naquela algazarra o homem lembrou de algo muito importante e voltou-se para o ancião.
- E qual era a palavra?
O velho então se voltou para ele e sussurrou:
- Yeshua.


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