“Tem momentos em que as coisas realmente parecem eternas, mas ai algo
silencioso nos chama, a morte, branda e fria como uma chama que se apaga. Canta
uma melodia muda, que nos toma a alma e nos arrebata. Então um filme na imensidão
lúgubre da inexistência começa a rodar, preto e branco, e não se ouve som
algum. As pessoas surgem na tela uma a uma, com sorrisos gentis estampados no
rosto, chamando-me, tocam-me com mãos quentes que só se pode imaginar. Olha-nos
com olhares expressivos, como se quisesse não apenas nos sondar, mas adentrar
em nosso coração e ali morar. Os sorrisos inelegíveis e afáveis. Em outros momentos
as brincadeiras de uma infância tenra. A bicicleta, o balanço, a pipa, a bola e
a boneca se misturam. Nesses momentos não estamos sozinhos, sempre há alguém por
ali, que nos acompanha em tudo quanto é lugar. Nas traquinagens da meninice. Ao
entardecer, mamãe prepara algo incrível, cujo sabor nunca mais iremos provar,
pois ao crescermos e experimentar as desilusões da vida, tudo passa a ter um
amargor estranho que não sabemos explicar. Mas outra lembrança também esta lá se
insinuando sobre a tela pelo rolo do filme, um aperto no peito ao vê-lo
aproximar, a ansiedade da ausência, a alegria do reencontro, e mais ainda a
ternura do primeiro beijo, cujo sentimento jamais pode apagar ou mesmo se
repetir. Porque com o passar do tempo ele se perde em tantas outras coisas.
Que
não tem mais sentido. Algumas lagrimas pintam o filme enquanto roda, desfocando-o, dizem que passam em alguns
minutos, mas para mim, foi a minha vida toda. O som silencioso que queda nossa
alma na inquietude, esta lá como trilha sonora do filme da nossa vida. Nesse
instante a palavra eterno soa como uma piada sem graça e percebemos algo incrível.
Mas que de uma maneira ou de outra sempre fez parte da nossa vida, mas por
alguma razão resolvemos ignora-lo. O quanto
desperdiçamos nosso tempo. Olhando para o espelho de minha existência, para as
pessoas que passaram por ela, percebo algo de muito valor, queria ter a
oportunidade de falar mais um dia com essa pessoa amiga, de brincar mais um
pouco, de se aventurar mais uma vez no mundo das descobertas, de dar mais um
abraço, de beijar delicadamente mais uma vez, e ter podido dizer a ele que eu
amava mesmo sabendo que ele não. Quando o filme acaba um vazio toma o seu
lugar. Aquele mesmo que se insinua nas beiradas de nossa breve existência, toda
vez que nos sentimentos frágeis. Tomando nosso corpo, enquanto nos perdemos na
imensidão de um sono profundo. Ai indagamos mais uma vez, o que é essa palavra
intocada e etérea, eterno? Porque, perder se vamos nos encontrar? Como queremos
levar o que somos para a eternidade sem nem ao menos reconhecemos seu valor? As
pessoas passam por nós, e a encaramos apenas como uma extensão de nós mesmos.
Não usamos de sensibilidade para tratar a angustia alheia e desmedidamente
queremos o outro apenas como objeto de um desejo insaciável novamente: nosso! O
filme talvez passe para aqueles que partem apenas para aprender a medir suas
ações, sabendo que tudo que passou ficara para trás. E não há possibilidade de
resgate! A nossa alma cujo caráter eterno perdurara ainda que para isso
tenhamos que perder todo resto!”
Parabens carlinha por palavras tao sabias e lindas.
ResponderExcluirFrank