sábado, 9 de junho de 2012

Filme Mudo


“Tem momentos em que as coisas realmente parecem eternas, mas ai algo silencioso nos chama, a morte, branda e fria como uma chama que se apaga. Canta uma melodia muda, que nos toma a alma e nos arrebata. Então um filme na imensidão lúgubre da inexistência começa a rodar, preto e branco, e não se ouve som algum. As pessoas surgem na tela uma a uma, com sorrisos gentis estampados no rosto, chamando-me, tocam-me com mãos quentes que só se pode imaginar. Olha-nos com olhares expressivos, como se quisesse não apenas nos sondar, mas adentrar em nosso coração e ali morar. Os sorrisos inelegíveis e afáveis. Em outros momentos as brincadeiras de uma infância tenra. A bicicleta, o balanço, a pipa, a bola e a boneca se misturam. Nesses momentos não estamos sozinhos, sempre há alguém por ali, que nos acompanha em tudo quanto é lugar. Nas traquinagens da meninice. Ao entardecer, mamãe prepara algo incrível, cujo sabor nunca mais iremos provar, pois ao crescermos e experimentar as desilusões da vida, tudo passa a ter um amargor estranho que não sabemos explicar. Mas outra lembrança também esta lá se insinuando sobre a tela pelo rolo do filme, um aperto no peito ao vê-lo aproximar, a ansiedade da ausência, a alegria do reencontro, e mais ainda a ternura do primeiro beijo, cujo sentimento jamais pode apagar ou mesmo se repetir. Porque com o passar do tempo ele se perde em tantas outras coisas. 
Que não tem mais sentido. Algumas lagrimas pintam o filme enquanto  roda, desfocando-o, dizem que passam em alguns minutos, mas para mim, foi a minha vida toda. O som silencioso que queda nossa alma na inquietude, esta lá como trilha sonora do filme da nossa vida. Nesse instante a palavra eterno soa como uma piada sem graça e percebemos algo incrível. Mas que de uma maneira ou de outra sempre fez parte da nossa vida, mas por alguma razão resolvemos ignora-lo.  O quanto desperdiçamos nosso tempo. Olhando para o espelho de minha existência, para as pessoas que passaram por ela, percebo algo de muito valor, queria ter a oportunidade de falar mais um dia com essa pessoa amiga, de brincar mais um pouco, de se aventurar mais uma vez no mundo das descobertas, de dar mais um abraço, de beijar delicadamente mais uma vez, e ter podido dizer a ele que eu amava mesmo sabendo que ele não. Quando o filme acaba um vazio toma o seu lugar. Aquele mesmo que se insinua nas beiradas de nossa breve existência, toda vez que nos sentimentos frágeis. Tomando nosso corpo, enquanto nos perdemos na imensidão de um sono profundo. Ai indagamos mais uma vez, o que é essa palavra intocada e etérea, eterno? Porque, perder se vamos nos encontrar? Como queremos levar o que somos para a eternidade sem nem ao menos reconhecemos seu valor? As pessoas passam por nós, e a encaramos apenas como uma extensão de nós mesmos. Não usamos de sensibilidade para tratar a angustia alheia e desmedidamente queremos o outro apenas como objeto de um desejo insaciável novamente: nosso! O filme talvez passe para aqueles que partem apenas para aprender a medir suas ações, sabendo que tudo que passou ficara para trás. E não há possibilidade de resgate! A nossa alma cujo caráter eterno perdurara ainda que para isso tenhamos que perder todo resto!”

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