"...Então Ivi em que posso ajudá-la?
Ivi olhou cautelosa para todos os lados, então se aproximou do menino e
abaixou o tom de voz.
- Eu preciso de comprar alguns utensílios domésticos –sussurrou ela –mas
não qualquer um.
O menino encarou aquela garota estranha mais uma vez.
- Você não deveria estar comprando coisas como doces, enfeites, livro?
–perguntou ele cauteloso.
- Isso é mais importante! –respondeu ela alegre
Ele encarou-a por algum tempo, e então se encaminhou para a seção de
utilidades domésticas.
- Certo –disse ele satisfeito quando chegaram lá –o que exatamente você
procura?
A menina colocou o dedo no queixo pensativa.
- Ahhh deixe eu ver, primeiro eu preciso de uma faca! Uma que seja boa.
Satisfeito por ela ter feito um pedido razoável, ele lhe mostrou a
prateleira em que ficavam as facas. Ela olhou concentrada para todas elas, para
todos os formatos e tamanhos, mas nenhuma parecia ser como ela queria. Chateada
ela virou-se para o menino.
- Isso não serve! –declarou ela, a angustia marcando como linhas seu
pequeno rosto alegre.
A reação dela, surpreendeu ele, e por um momento ele realmente achou que
ela ia chorar.
- Como não serve? –retrucou ele perplexo –é tudo faca!
- Mas são afiadas!
O menino lançou um olhar resignado para ela.
- E você esperava o quê de uma faca?
Ela fechou a cara.
- Você não está ajudando! –disse ela.
A suas palavras, o menino olhou cauteloso para onde seus país
trabalhavam e ambos cravaram seus olhos acusadores em sua direção. Ele respirou
fundo.
- Certo, Certo –disse ele se dando por vencido –que tipo de faca
exatamente você quer?
A essas palavras de encorajamento, o sorriso da menina se iluminou.
- Eu preciso de uma faca que pareça boa, mas que não corte muito, que
não seja afiada!
O menino a encarou novamente como se ela fosse louca.
- Você quer uma faca cega? –perguntou ele perplexo.
Ela assentiu com a cabeça feliz.
Resignado ele pegou uma única faca no canto mais escondido da prateleira
e mostrou a ela. Ivi, testou a lamina satisfeita.
- É serio, você quer mesmo isso?
Novamente ela assentiu, sorrindo de orelha a orelha. Ele suspirou ainda
mais profundamente.
- Qual é o próximo item da lista? –perguntou ele desanimado.
Motivada pela conquista de ter achado o primeiro item da sua lista tão
procurada, ela se pôs a falar feito torrente.
- Ah eu preciso de algum aparelho ou utensílio domestico que pique
legumes, ou corte a batata fininha para fritar, também vou precisar de alguma
engenhoca que corte carne ou desosse frango.
O menino continuava a encará-la como se ela tivesse um parafuso a menos.
- Sério, você não acha que é muito nova para casar não?
A menina fechou a cara, cruzou os braços, e bateu o pé no chão,
irritada.
- E você não acha que a vida pessoal de seus clientes não é da sua
conta?
O menino até pensou em responder insolentemente àquela observação
inteligente dela, mas antes que suas palavras chegassem à boca, algum objeto
voador não identificado surgiu de algum lugar atrás dele e bateu com toda a
força na sua nuca. Ele levou a mão a cabeça e gemendo encolheu-se. Relutante
olhou para trás. Seus pais detinha uma expressão assustadora no rosto. Respirou
fundo e levantou novamente. A sua frente a menina o encarava raivosa. Apesar
disso ele sorriu.
- Você tem razão, me perdoe.
Aquelas palavras pegaram-na completamente desprevenida, e desconcertada
ela desviou o olhar.
- Tudo bem.
- Bom vamos tentar de novo, tá bem?
Alegre a menina assentiu.
- Deixe-me repetir a pergunta, o que mais você precisa?
- Eu preciso de algum utensílio ou aparelho que corte e pique legumes, e
se há alguma coisa que corte carne?
Apesar do esforço ele continuou encarando-a irritado, embora nem ele
mesmo soubesse do por que.
- Faca?! –respondeu ele simplesmente, o que a fez encara-lo desconfiada.
- Mas isso não resolve o meu problema – sussurrou ela, baixando o rosto.
Constrangido ele continuou a encara-la sem saber o que fazer.
- Eu não tenho como ajudá-la se você não me disser exatamente porque
você precisa dessas coisas.
A menina continuou de cabeça baixa.
- Eu só quero algo que a ajude –sussurrou ela –sem, no entanto
machuca-la.
Agora ele a encarava estupefato.
- Escute –disse ele vencido – o que você quer talvez seja mais caro do
que você espera, ainda assim vai querer?
Aquelas palavras devolveram-lhe o sorriso e satisfeita ela assentiu.
- Não se preocupe com isso, eu juntei bastante dinheiro!
- Certo, então vamos começar –disse ele satisfeito –o que você precisa é
disso! –completou ele mostrando um aparelho de porte médio, repleto de botões,
e acessórios que ela nem sabia ao certo para quê servia.
- Ahhh e o que exatamente é isso? –perguntou ela confusa, pegando o
aparelho e virando-o de um lado para outro para entender exatamente do que se
tratava.
Ele riu dela e gentilmente tirou o aparelho das mãos dela.
- Isso é um processador de alimentos –disse ele com um sorriso
confiante, enquanto ela se limitou a olha-lo perdida – essa belezinha aqui
fatia frutas, legumes, verduras e carnes. Ainda bate massas pesadas, prepare
cremes. Bate, moe e tritura qualquer coisa apenas ao alcance de um botão! –
concluiu ele, levando dramaticamente o dedo indicador ao painel de botões do
aparelho.
Ao ouvir aquilo, os olhos dela brilharam e aquele aparelho confuso
passou a emitir uma áurea cintilante como se reluzisse feito ouro.
- Eu vou levar –disse ela decidida, independente do valor, pois ele
serviria a um propósito que dinheiro nenhum no mundo podia comprar.
O menino anuiu com a cabeça.
- E para cortes de carnes que exigem maior esforço eu indico isso – ele
então mostrou-lhe uma faca de aparência estranha. O cabo era bem maior e mais
largo que as facas comuns, a própria lâmina era mais comprida que a maioria das
facas além de ser dentada –Isso é uma faca elétrica –apressou-se ele a explicar
ao olhar a confusão no rosto da menina – com ela não haverá mais a necessidade
de maiores esforços mesmo que para cortar aqueles alimentos mais difíceis.
A menina pegou o aparelho encantada, e encarou o menino satisfeita.
- Você ainda tem mais algum aparelho a me mostrar? –perguntou ela
gentilmente.
O menino negou com um pequeno gesto da cabeça.
- Não importa –disse ela alegre –o pouco que você me mostrou era tudo o
que eu precisava! Muito obrigada.
A mulher que ainda há pouco empilhava produtos sobre as prateleiras e
bancadas, esperava a menina com as caixas fechadas dos produtos que ela
escolhera sobre o balcão do caixa. Ela usou todo o dinheiro que juntara para
fazer aquela compra. Agradeceu toda ajuda que teve do menino novamente e depois
saiu da tenda prometendo voltar novamente no ano seguinte.
O menino continuou a encará-la até o momento que ela saíra da tenda,
desconcertado pela gentileza dela.
Ela cruzou novamente no anonimato as tendas e barracas. Seu semblante
que antes carregava uma pequena mascara de preocupação, parecia em paz. O
sorriso que não abandonava seu rosto, e o olhar que pintava a manhã de dourado.
Perfez o caminho da rua curva, da avenida paralela, do fim ultimo em que
leva todos os caminhos. Desceu a pequena ladeira, até chegar à parte baixa da
cidade, pintada ao longe pelo brilho ocasional das águas a agitar o leito do
rio. Pegou um pequeno atalho atrás da Igrejinha, passou pelo campinho. Meninos
gritavam, corriam, passavam a bola. Caminhou na trilha apertada entre as
cercas, vacas pastavam preguiçosamente, galinhas ciscavam o chão. As bravias
mulheres desse lugar encravado no interior das Minas Gerais, regavam as hortas,
batiam enxada nessa manha ensolarada. O trajeto rasgava regatos, subia às
sombras dos manguezais. E por fim desembocava ao fim da rua de sua casa.



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