O céu estava revolto. Nuvens de tempestades se agitavam acima dos
horizontes. O vento uivava, agitava violentamente as cortinas, e invadia o
quarto com toda a sua fúria. Ela sentia o frio lhe perpassar ao longe. Seu
coração balançava ao vento. Quando a primeira gota irrompeu das nuvens de
tempestade, uma lagrima rolou lentamente pelo seu rosto. A tormenta que se avistava
lá fora era a mesma que toldava os seus pensamentos. Fechou os olhos, e esperou
a fúria passar.
- Você achou? –indagou uma voz distante. Uma voz soprada por mil outras
vozes.
A estranha voz despertou a sua consciência. Seus olhos ainda ardiam
fechados. A febre a lhe queimar as pálpebras.
- Achei? –sussurrou ela confusa.
- Sim –respondeu de volta as mil vozes – você achou aquilo que
procurava? A morada de Deus?
Um sentimento de reconhecimento tomou conta dela, ao mesmo tempo em que
uma nova onda de dor percorreu todo seu ser.
- Não – admitiu ela por fim – não há nesse mundo um lugar assim.
Lá fora singelas gotas de chuva, lavavam a terra seca.
- Você esteve fora por tanto tempo – disse-lhe a voz delicadamente – e ainda
assim não achou a resposta que procurava?
Seus olhos encheram d´água.
- Não – disse ela humildemente – estive em tantos lugares e com uma
infinidade de pessoas diferentes, com tantos meios diferentes de ver Deus, mas
eu não o vi em lugar algum. Não estava em nenhum lugar escondido que não pudesse
ser encontrado, nenhuma baía, nenhum recife esquecido. Não estava nos templos,
nem nas tradições, não estava nos livros, nem nas religiões. Não estava entre os
humildes, nem com os peregrinos do Deserto, não estava entre os ricos, nem em
seus monumentos. Não estava no alto de uma montanha, nem em um vale profundo. Tão
pouco no seio da Floresta nem nas vastas extensões geladas das tundras
siberianas. Não estava nos requícios do passado, entre as pirâmides do Egito,
ou na grande muralha, também nenhuma noticia tive no monte Sinai. Nem nos rios
que ligam este mundo. Nem nas pontes que ligam as pessoas. Não encontrei Deus
em lugar nenhum.
Um breve momento se passou, após essas derradeiras palavras. O vento
ainda sussurrava arredio pela janela.
- Deus existe? – indagou então a voz, e ela veio tão tremula, que a menina
se compadeceu dela.
- A resposta que eu achei, talvez não sirva para você! – respondeu-lhe
ela delicadamente.
- E porque não? – questionou-lhe a voz vivamente curiosa.
- Porque cada um deve encontrar a sua própria resposta –disse ela –uma que
satisfaça sua alma. Uma que não precisa da opinião alheia para saber se é real
ou não. Uma que não seja influenciada por nenhuma pessoa, nenhuma vontade,
nenhuma razão que aparentemente lhe tome a verdade, ou tolda-lhe a visão de
Deus.
Ela sentiu ao longe, a voz sorrir.
- Eu preciso saber – insistiu a voz – Você encontrou Deus? Ele existe?
Ela então abriu os olhos. Mas não viu a tempestade. Viu um horizonte que
se estende além daquilo que se pode ver. O sol recortava a paisagem sobre um
mosaico de cores. Pintava o verde da folha nova sobre as arvores e as gramas.
Animais pastavam preguiçosamente sobre as paragens sem cerca. O frio não ardia
sua pele, nem a febre queimava-lhe o corpo. Levantou-se do chão, e ergueu os
olhos. Alguém lhe estendia as mãos. Alguém que pulsava como o vento, nas brisas
de verão. Que tinha a pele morena como chocolate quente, e parecia flutuar a
menor brisa. Aceitou-lhe a mão que lhe era oferecida. E assim que a tocou
sentiu, pela primeira vez como em um estalo, uma eureca, que já não sentia mais
medo, tristeza ou dor. A mão que segurava, era forte e segura. Nela podia
descansar.
Ele então sorriu para ela.
- Então – indagou ele novamente, sua voz era uma e era três, homem,
mulher e criança – você encontrou Deus? Ele existe?
- Sim – disse ela – procurei por muito tempo, mas a verdade era que eu não
sabia o que procurar. Queria ver alguém, ou sentir-me protegida? Essa não era a
verdade absoluta. No fim descobrir que em todos os lugares que eu ia, eu estava
apenas procurando por mim mesma. Por essa razão de existir. Pela resposta desse
medo visceral de ser apenas mais um animal, um ser autônomo que não tem outra
razão de ser a não ser nascer, comer, crescer, aprender, reproduzir, envelhecer
e morrer. Um ser feito apenas de verbos, nada mais que isso. Então em certo
momento parei de procurar nos lugares e olhei para dentro de mim. Perfiz o
caminho dos filósofos e eruditos. Dos teólogos e dos cientistas. Mas sempre
batia no mesmo muro. Nas mesmas indagações cujas respostas eram outras tantas
perguntas. Percebi que a resposta não deveria ser tão complexa assim, então
parei de querer justificar a existência de Deus através dos meus olhos, dos
meus medos, dentro dos limites do meu universo e comecei a justificar a mim
mesma, procurando razões para provar que eu existo. Percebi algo incrível e ao
mesmo tempo tão simplório que meu coração estremeceu de alegria, e uma sensação
quente envolveu-me completamente. No meio do turbilhão de duvidas, percebi que
sentia. Mais do que apenas reproduzir um comportamento, eu sentia. Sentia medo,
anseio, raiva, inveja, compaixão, tristeza, culpa, alegria, amor e tantos
outros sentimentos que me tornava viva, não uma condição de ser vivo, mais ser
que existe, por qualquer que seja a razão dessa existência. E quando descobrir
essa verdade, o encontrei. E assim como eu, ele sentia.
Ele olhou para ela surpreso.
- Mas você não disse que não encontrou Deus em lugar algum? – indagou ele
de novo.
- Sim – respondeu ela – e mantenho, não existe um lugar na terra em que
ele esteja, e que seja possível acha-lo. Mas existe seis bilhões de lugares nesse
mundo em que ele possa nós encontrar!
A chuva desceu feito torrente, mas suas lágrimas em fim secaram. E quando
finalmente a tormenta passou, ela não abriu os olhos, nem mudou de lado na
cama, para aproveitar esse pequeno raio de luz solar que aquecia sua pele fria
da fúria do vento. Seus pés agora percorriam outros caminhos, seus olhos já não
estavam mais toldados, e ela viu, caminhando bem ao seu lado. Aquele a quem
sempre procurou!

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