No avesso do espelho
Ela para e espera
O ônibus passa soprando uma brisa quente e pesada
Os sapatos comprimem os pés cansados
Ela olha para cima e não consegue enxergar nada além de pedras.
Em ângulos retos e obtusos
Anseia pelas formas
Das montanhas em suas curvaturas anunciando outros horizontes.
Das folhas que caem ao vento disperso do inverno
Do roxo, do rosa e do amarelo de meus queridos Ipês
Das altas castanheiras e da brisa morna que varre por entre elas
Ela suspira
Se perde nas lembranças tenras de sua querida infância
Das vezes que estendeu um lençol branco com delicadas flores azuis na borda
De baixo do bambuzal
E ficava a observar preguiçosamente o mesmo vento varrer delicadamente as folhas do bambu
Era reconfortante ouvir o ranger dos enormes bambus a percorrer a dança do vento
Ao longe o riacho corria lentamente as falhas das montanhas, se quebrando em pequenas marolas pelos caminhos afora...
As montanhas eram redondas e preenchiam os espaços delicadamente desenhados até Deus
O pôr-do-sol alaranjado nas tardes de domingos
Papagaios eram feitos de papel de ceda e ainda eram brincadeiras de crianças, e o carretel era uma ferramenta mirabolante com uma alavanca estranha que recolhia toda linha sem nenhum esforço.
Ficaram apenas as formas...
E ela podia imaginar que alem dessas pálidas cores cinzas em preto e branco existirá em algum lugar um pequeno rio, percorrendo as beiradas das montanhas, ziguezagueando pelo espaço afora.
E o vento ainda vem sussurrar, saltando de uma arvore a outra a pequenas distancias.
Como se o tempo e o espaço fosse apenas invenção dos homens
Arquitetura divina
A chuva que caia no final das tardes, ainda era uma representação de fúria... Ao mesmo tempo o som disperso das milhares gotículas que lavavam a terra, lembravam o suave som de um piano a soar nos céus.
O cheiro era de capim molhado... Recendia as flores de laranjeira e de capim cidreira
Na casa da vovó, comida era feita no fogão de lenha, biscoitos de nata, e de polvilho.
Ficaram apenas as saudades
Hoje parece distante, como se fosse um sonho, cuja lembrança se perdeu, nas nossas inquietudes. Nos nossos momentos de desilusão.
Mas ainda distante
Distante de tudo, distante de Deus, distantes de quem éramos.
Uma lagrima varre a face cansada.
Em algum momento, nessas paredes de concretos perdeu a si mesma
Ela era algo imensurável
E não devíamos ser todos assim? Cada um seguindo no coração aquilo que Deus havia planejado para sua vida?
Hoje somos um numero, cuja cifra, há um divisor e um multiplicador comum...
Ela percebe a movimentação. Meu Deus quando agarramo-nos as coisas com demasiado sentido de posse?
Quando um objeto passou a valer mais que a vida das pessoas?
Quando beleza virou sinônimo de igualdade?
Ela sempre tivera plena consciência do que era perfeição...
Era tudo aquilo que se estende desde a beirada do mundo ate os céus, cuja escultura não tenha uma única parcela das mãos humanas deturpando suas formas. E nessa magnífica obra o tudo, desde o menor dos liquens, até os anelados dos cabelos da morena mineira.
A perfeição é Deus, e tudo que ele tem feito. O resto é obliquo como o lado negro da lua.
É encoberto como um dia chuvoso, cuja imensidão só nos é visível, como as cores desbotadas de um longo outono.
Os dias escuros e as longas noites sem o brilho das estrelas denuncia apenas isso: estamos verdadeiramente cegos.
Já não nos é possível vislumbrar Deus...
Carla C. Valadares


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